lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A Varanda

Certamente não estamos na era em que temos o maior contato com a natureza, a vida urbana, especialmente em apartamentos, nos aparta não só da proximidade com plantas e animais, mas também nos coloca em outra perspectiva em relação ao nosso redor. Já não enxergamos o mundo pelo olhar de um observador, mas sim como um pássaro das janelas dos edifícios, essas distorções da nossa percepção entraram na nossa casa como conceitos e hoje moldam bastante a forma com que ocupamos o lar

A Varanda

Seja na conversa entre os ambientes internos e externos, a luz que entra e a vista que se emoldura, o uso dessa extensão da área social quase como um quintal suspenso. E são exatamente as varandas que se propõem a ser o cômodo de transição entre o que é dentro e fora, isso porque pensando de maneira utilitária, seu uso não é definido por uma necessidade (como cozinhas, banheiros e quartos, por exemplo) mas sim por um fator de adaptabilidade do ser humano nos lares do século XXI.,

A Varanda
A Varanda
A Varanda

Precisamos de espaços para descansar, para socializar, para rir com amigos ou para tomar um vinho depois do trabalho, precisamos também de ventilação e iluminação natural e da sensação de que “saímos” de casa, ainda que sequer tenhamos destrancado a porta. Por isso nas varandas que costumam estar nossas plantas, a churrasqueira com uma mesinha para os fins de semana, sofás e poltronas para receber os amigos emoldurados por uma vista do lado de fora, é quase como se estivéssemos socializando sem estar dentro de um espaço físico.

A Varanda

Por fim, talvez o que realmente nos une é a vida em sociedade, são as conversas bobas, as risadas que trocamos e os momentos que vamos compartilhando com pessoas queridas durante nosso tempo por aqui. Por isso gostamos tanto de sofás, tapetes e espaços que nos permitem socializar, porque no fundo, ainda somos humanos e queremos conversar olhando o céu estrelado durante a noite para nos sentirmos vivos.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O Aconchego

Geralmente, quando pensamos em sensações aconchegantes, o calor é um estímulo que costuma aparecer como um bom exemplo. Não apenas o calor do sol na nossa pele em um dia frio, mas também o toque quente de materiais como tecidos, madeiras e outros que um dia foram plantas enraizadas no solo. Essa sensação calorosa, além da percepção sensorial, está também relacionada à uma conexão com a natureza e o planeta, como se tudo e todos que existem compartilhassem esse ancestral comum que é a Terra.

Entretanto existem algumas limitações para a materialidade e a água é certamente uma delas. Talvez seja um dos elementos mais difíceis de lidar pois ela consegue passar pelas mínimas frestas e se infiltrar com uma rapidez única, sendo assim, costumamos deixar a madeira, os tecidos e demais elementos quentes de fora quando estamos em um lugar molhado como um banheiro.,

O Aconchego

Em um lugar onde estamos completamente despidos certamente a frieza de alguns materiais pode ser uma questão a se lidar. Entretanto, temos a sorte de perceber o mundo ao nosso redor com os cinco sentidos e tanto o visual, quanto os aromas e sons e até mesmo as texturas podem nos proporcionar aconchego caloroso que buscamos. Um banho com seixos massageando nossos pés como se estivéssemos em um lago, a textura amadeirada de uma placa cerâmica que remete à quentura da madeira, a iluminação indireta e até mesmo as toalhas e tapetes que completam esse cenário são capazes propor novas formas se aconchegar.,

O Aconchego
O Aconchego

E se pensar que o banheiro é um dos primeiros lugares que vamos após despertar, onde começamos a lavar o rosto para acordar e damos o pontapé inicial no nosso dia, ao mesmo tempo que é o último lugar que vamos para tomar um banho e relaxar antes de nos deitarmos, é importante que seja um espaço pra lá de aconchegante. Mesmo que cheio de pedras, louças e metais frios são as nossas marcas de uso que trazem quentura para o espaço, seja com uma penteadeira cheia de maquiagens, plantas decorativas, produtos de skin care ou toalhas macias penduradas. Afinal de contas, onde existe vida existe aconchego.,

O Aconchego
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

Os tecidos

Desde a Idade Média nossos antepassados se cobriam para se proteger do frio, entretanto, antes de existirem os tecidos eram usadas apenas algumas peles de animais sobre o corpo. Acontece que o conforto chegou e nossa obsessão por tecidos não só inaugurou diversas rotas da seda pelo mundo, mas também fez com que a gente os colocasse ao nosso redor a todo tempo, literalmente.

Nos cobrimos para dormir, abrimos as cortinas ao acordar, tomamos um banho e nos secamos com uma toalha, limpamos a bagunça do café com um pano e, antes de sair, colocamos tudo em uma bolsa feita de algum tecido. A necessidade de se manter quente e protegido expandiu-se para nossas casas e hoje forramos as nossas camas todos os dias antes de dormir.

Os Tecidos

Entretanto essa obsessão não é ao acaso, precisamos de aconchego para tornar nossa vida mais confortável. Não é de se espantar que nossos quartos costumam ser os ambientes mais aconchegantes da casa, a luz quente indireta, as cores pasteis, cabeceiras estofadas com mais tecido a até a madeira dos móveis e piso são os responsáveis em criar esse tipo de atmosfera.

Os Tecidos
Os Tecidos
Os Tecidos

Assim como as cores, as sensações que esses materiais nos transmitem não são ao acaso. A forma com que interpretamos o ambiente ao nosso redor passa por todos os sentidos e o toque da madeira que já esteve plantada no solo é mais caloroso que o do metal. Vamos fazendo lentas transições de sensações, acordando em uma cama quentinha e encostando em uma cabeceira fofa, pisando em um tapete e caminhando pelo piso de madeira até que a água do banho nos acorde e o dia comece.

Os Tecidos

E por isso revestimos as coisas, cobrimos paredes, pisos e mobiliários porque a forma como sentimos o mundo é importante para nosso bem-estar, e no fim, temos um mundo de texturas, temperaturas, cores e aromas para nos acolher e aconchegar.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A Bagunça

Sempre ouvi dizer que alguns móveis são como curvas de rio: conforme as coisas vão passando algumas acabam ficando amontoadas nas margens. Aquela cadeira de escrivaninha que não usamos todo dia, uma bicicleta ergométrica que compramos durante o isolamento social ou até mesmo a mesa de trabalho diária podem virar verdadeiros depósitos de roupas para dobrar, bolsas e outras coisas que, na correria do dia a dia, são colocadas na pasta “resolver depois” no fundo do cérebro.

A Bagunça

Acontece que, na maioria das vezes, nós não somos desorganizados e incapazes de conter a nossa própria bagunça, temos que aceitar que a maioria de nós temos rotinas corridas e, entre buscar a criança na escola, dar comida para o cachorro, fazer janta e tomar um banho as vezes fica difícil lembrar de guardar cada coisa no seu devido lugar. Uma das formas que a arquitetura encontra para driblar os problemas da rotina é pensar neles como condicionantes para o projeto.

Sendo assim, se sabemos que vamos chegar em casa com duas sacolas penduradas nos braços e as mãos ocupadas com chaves talvez o mais sensato a se fazer é pensar em um lugar para jogarmos tudo de uma vez, porque sabemos bem que vez ou outra as coisas vão ficando pelo caminho, e está tudo bem.

A Bagunça
A Bagunça
A Bagunça

Nem sempre a forma com que as coisas vêm sendo feitas é o que se adapta ao nosso estilo de vida, até porque nós estamos sempre em movimento e as coisas param de fazer sentido com a mesma rapidez que começam. Não é porque decidimos que as chaves deveriam ficar penduradas ao lado da porta que não podemos apenas deixa-las numa tigela ao lado da cama, ou porque decidimos que temos que dobrar as camisetas em gavetas que não podemos coloca-las dentro de um baú (ou apenas deixa-las num cesto no armário até a gente dobrar, sabemos que as vezes a preguiça é maior). O ponto é, pensamos em ambientes para nos sentirmos bem com a nossa vida dentro deles e, por isso, nossa vida precisa caber na nossa casa do jeito e formato que ela é, porque no fim do dia, iremos deitar na cama e recomeçar tudo mais uma vez e o mais importante é que a gente se sinta bem.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O Lavabo

Temos o costume de separar nossas casas em espaços sociais e íntimos, isso porque muitas vezes não queremos receber amigos e visitas em meio às nossas roupas, bagunças do dia a dia e pertences pessoais. Uma grande inovação da arquitetura modernista, ao entender que as funções devem ser exploradas ao máximo, foi perceber que a casa de banho e o lavabo poderiam ser espaços separados, afinal dificilmente iremos usar pia, vaso sanitário e chuveiro ao mesmo tempo.

Lavabos não são necessariamente uma novidade arquitetônica, historicamente as casas dispunham de tinas ou pias para lavar as mãos antes de refeições ou ao acordar, sempre ligados à uma ideia de higiene pessoal, entretanto, ter um espaço de higiene para visitas é bastante inovador do ponto de vista funcional. Com a correria do dia a dia nem sempre conseguimos organizar nossos espaços pessoais e, certamente, nem sempre é confortável deixar visitas usarem o banheiro com produtos de skin care e roupas íntimas penduradas no box. A função de higiene somada ao apelo estético dos lavabos os tornou aconchegantes e, geralmente, muito cheios de personalidade.

O Lavabo

Por serem áreas molhadas, e com muita umidade, geralmente precisamos tomar cuidado com os materiais dos banheiros, porém os lavabos, onde não há um chuveiro, permitem uma integração bem harmoniosa com os ambientes sociais. Revestimentos quentes tal qual a madeira natural ou pedras mais rústicas, iluminação cênica e direcional para criar pontos de foco, quadros e decorações que costumam não poder molhar e até mesmo texturas mais inusitadas para as bancadas, mais porosas do que de costume, fazem parte do cardápio criativo que um banheiro de visitas oferece aos arquitetos que o projetam.

O Lavabo

No mais, a surpresa de abrir uma portinha e se deparar com um cômodo cheio de charme, que as vezes se destaca completamente do resto da casa, costuma ser bastante interessante para os frequentadores. Por não serem espaços de longa permanência o abuso de cores também não é visto como algo claustrofóbico, e por isso que talvez o lugar mais interessante de visitar ao conhecer a casa nova de alguém seja, exatamente, o lavabo.

O Lavabo
O Lavabo
O Lavabo
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O backstage

Uma das primeiras definições do que é arquitetura pode ser atribuída à Vitruvio, o mesmo que deu o nome ao Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci. Ele dizia que para algo ser considerado arquitetura precisava se encaixar em três categorias chamadas de firmitas, utilitas e venustas. Respectivamente, deveria ter estabilidade estrutural para ficar em pé, ter uma utilidade definida e que fizesse sentido e, por fim, ser belo. Mesmo que o conceito de beleza possa ter mudado drasticamente da Roma antiga para os dias de hoje ainda nos apoiamos nesses pilares para construir boa arquitetura.

A organização é bela. O visual organizado não é só agradável por remeter a limpeza e tranquilidade, mas também porque vivemos em um mundo no qual precisamos acordar cedo e dar café para as crianças, alimentar o gato e lavar a louça antes de chegar no trabalho. Portanto, é bastante útil que a gente não precise gastar tempo procurando coisas toda vez que queremos usá-las.

O backstage

Grande parte da nossa qualidade de vida é proveniente das experiencias positivas que temos ao frequentar ambientes, e essas experiencias sensoriais passam também pelo que vemos. Alguns podem preferir esconder as bagunças em armários ou criar grandes espaços para armazenar aquilo que pouco se usa, podemos usar a cor branca de forma monocromática para passar a sensação de uma amplitude limpa e organizada. A criatividade nem sempre está em ser fora da curva, mas as vezes em uma simples solução de puxadores em cava que não vão enganchar na pilha de roupa limpa quando precisarmos abrir a porta com uma só mão, ou na criação de uma bancada de pedra acima da máquina para poder apoiar um cesto e um pote de sabão em pó sem fazer uma grande sujeira naqueles cantinhos que quase nunca conseguimos limpar.

O backstage

Mas também a organização pode existir ao deixarmos tudo à vista, de forma que encontremos aquilo que queremos sem nem precisar abrir um armário. Ou trazendo alguma calidez com madeiras, tapetes e metais que se misturam nos diversos rótulos e embalagens chamativas da despensa. O ponto é: nem só de festas, encontros e comemorações vive uma casa, precisamos também cuidar do que acontece atrás das cortinas enquanto a peça da vida se desenrola no palco, não só porque uma casa que contemple nossas reais necessidades aumenta drasticamente nossa qualidade de vida, mas também porque o belo precisa ser útil e firme para fazer sentido.

O backstage
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

Os Serviços

A casa nasceu sendo uma extensão do espaço em que vivíamos. Quando precisávamos de abrigo para a chuva construíamos uma cobertura, quando precisávamos descansar construíamos um banco e aquilo que não podia ser construído ficava ao redor. O banheiro, antes de ser construído o sistema de esgoto urbano, tinha que ser separado da área social por questões de higiene, assim como a roupa que era lavada no rio ganhou um espaço fechado para ela assim que descobrimos a tecnologia para criar a máquina de lavar roupas. Entretanto a vida moderna e com menos espaço pede cortes e as grandes lavanderias, que também eram o espaço de estocagem e atividades manuais, foram sumindo dos apartamentos, cada vez mais integrados.

Os Serviço

Um paradoxo da arquitetura é exatamente compreender esses ambientes, que muitas vezes não são prioritários, mas que necessitam de mais espaço conforme o tamanho da família que vive ali. Uma cadeira a mais facilmente resolve uma mesa de jantar apertada, entretanto, é preciso de um dimensionamento preciso para dar conta de administrar as roupas de uma pessoa a mais, por isso as lavanderias modernas estão cada vez mais em um limiar entre espaço social e funcional.

Certamente existem aquelas famílias que prezam pela distinção de ambientes, ainda que a integração possa ser feita com um mesmo piso amadeirado que vem da área social do apartamento até a cozinha. Paredes de armários monocromáticas também são soluções precisas para esses espaços que precisam de armazenamento, mas também não podem parecer amontoados.

Os Serviço
Os Serviço
Os Serviço

De qualquer maneira, os espaços de serviço, produção e armazenamento já não são mais lugares isolados da nossa casa, a vida moderna pede que eles sejam espaços sociais pois são atividades que se encaixam em nossas rotinas exatamente nos momentos que precisamos de companhia. Uma banqueta para o amigo que te acompanha ao fogão, um tanque que funciona como pia para lavar a mão, pisos integrados e murais artísticos e outros muitos elementos começaram a fazer parte das nossas cozinhas e invadiram também a lavanderia, afinal estender roupas pode ser chato, mas fica mais prazeroso num ambiente bonito e com boa companhia.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A cozinha

Cada vez mais existem pessoas que baseiam sua alimentação em aplicativos de entregas, comidas congeladas para o mês, restaurantes e cozinhas colaborativas e passam cada vez menos tempo em casa preparando comida, tanto pela rotina quanto pela falta de interesse. Isso defende a arquiteta Anna Puigjaner quando diz que alguns serviços domésticos são trabalhos externos que devem ser remunerados.

A cozinha

Ainda que as cozinhas tenham sido um centro de reunião de muitas famílias por conta de diversos elementos, como o calor do fogo, o cheiro da comida sendo preparada, ser o espaço onde se faz as refeições em conjunto e tudo mais, o estilo de vida contemporâneo tem outras formas de ritualizar. Mesmo que as cozinhas não desapareçam elas podem se transformar em galerias de arte, por isso foi proposto um painel artístico inspirado nos jardins de Inhorim, com uma longa bancada para preparar drinks e petiscos e abrigar os convidados em banquetas ao redor do fogão que torna a atividade de preparar comida uma função social.

A cozinha

Dentro desse pensamento as escolhas estéticas também viram uma função para o ambiente, pois elas vão refletir ideais e conceitos que criam uma ambientalidade nas cozinhas, sendo assim, os revestimentos são outro elemento que podem passar por uma grande evolução dentro desses espaços de produção. As cores e texturas dos revestimentos propõem diferentes percepções para ambientes diferentes com as mesmas funções e isso pode importar muito quando pensamos que a cozinha é, também, um espaço social da casa. As pastilhas douradas com puxadores de baús nos armários vermelhos criam uma paleta intensa e vibrante para essa cozinha que, além de prática e dinâmica, tinha a proposta de ser teatral.

A cozinha
A cozinha
A cozinha

A evolução dos espaços de morar pode até ser lenta, porém passamos de cavernas para castelos e apartamentos estúdios em alguns milhares de anos, ainda que a extinção da cozinha possa ser algo completamente impensável para a nossa sociedade, ou ainda uma possibilidade nova para os pensadores mais radicais, é inegável que os materiais, as texturas e os processos que pensamos para construir um ambiente evolui com muito mais rapidez Portanto o que faz sentido hoje pode não ser muito cômodo em alguns anos e é isso que Anna defende em seu trabalho, seja você um chef de cozinha que preza por ter eletrodomésticos profissionais e criar um ambiente onde o preparo da comida seja o verdadeiro espetáculo, ou a pessoa que prefere uma cozinha branca e minimalista com tudo em seu lugar e sem excessos estéticos.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A abertura

O pós-guerra foi uma época de grandes avanços tecnológicos na Europa que se reconstruía, rendendo uma busca por maior praticidade, ergonomia e eficiência. Margarete Schütte-Lihotzky, arquiteta vienense, apresentou ao mundo o que seria conhecido como a Cozinha de Frankfurt, pensada para facilitar os processos de preparo e armazenamento, praticidade na limpeza e ergonomia do usuário. Ainda que esse trabalho de design propusesse criar a cozinha perfeita, ela tinha uma porta pensada para isolar a área de preparo da área social; acontece que a Cozinha de Frankfurt foi criada dois anos antes do voto feminino universal ser aprovado no Reino Unido, em um período entre duas guerras mundiais.

A Abertura

Ainda que a perfeição seja cientificamente comprovada, afinal a Cozinha de Frankfurt era mais prática, eficiente e ergonômica que cozinhas tradicionais, podemos imaginar que o que entendemos por ideal e perfeito muda com o passar do tempo. Ainda que Margarete defendesse os armários azuis escuros para facilidade de limpeza, hoje nossas cozinhas demandam o aconchego da madeira que abraça o piso e a mesa de jantar, ainda que seja preciso integrar eletrodomésticos que outrora estariam escondidos numa edícula, porque atualmente, já não temos mais tanto espaços para ter uma edícula.

A Abertura

Não só a tecnologia avança, mas as necessidades também acompanham a evolução. Para um confeiteiro, a cozinha perfeita precisa ter bancadas claras e resistentes, fornos potentes e uma área de refeições integrada, mas daqui cinco ou dez anos, essa necessidade pode ser outra, já que* cada vez mais percebemos como o mundo muda rápido e como somos capazes de nos adaptar.

A Abertura

E parece ser muito natural que a evolução das nossas cozinhas tenha sido se abrir para a mesa de jantar e o sofá, afinal, se esses dois móveis não fossem tão importantes para a história das nossas casas eles não teriam ganhado textos próprios. Por isso que projetamos e construímos, reprojetamos e reformamos, porque mesmo que nossa mesa esteja talhada em mármore, sempre podemos acabar precisando de mais uma cadeira; ainda que a geladeira seja grande as vezes teremos que comprar mais gelo e ainda que o sofá caiba todo mundo, as vezes teremos que puxar uma banqueta.

A Abertura
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O jantar

Chegar em casa depois do trabalho e ainda precisar cozinhar um jantar é, para muitos, o maior pesadelo que pode existir numa semana corrida. Das milhares de mudanças que as famílias foram tendo ao longo dos anos, uma bastante significativa é a dificuldade de se sentar e jantar em conjunto, não só por questões de convivência, mas também porque as vezes comer um sanduíche no sofá assistindo Netflix com alguém é muito mais o que a gente precisa.

O jantar

Porém, já existiu um tempo em que as grandes mesas redondas de madeira eram o lugar para reunir toda a família durante as refeições, e não que não sejam mais, porque esse costume prevalece com muita importância para bastante gente, entretanto, as salas de jantar já não são mais grandes locais de reunião, principalmente, pela dificuldade de se colocar grandes mesas nos apartamentos modernos.

Contudo não é só para comer que a gente se reúne, sempre tem aquele sábado a noite meio preguiçoso em que o melhor programa é chamar alguns amigos para beber vinho e jogar jogos de tabuleiro, e para isso, fomos criando cada vez mais soluções para caber cinco pessoas onde se sentariam quatro ou para apoiar as caixas de pizza enquanto as cartas estão em cima da mesa. A sala de jantar ganha bancos, aparadores, adegas, luminárias, prateleiras e decorações que tornam esse mais um ambiente social da casa, sendo cenário tanto dos cafés da manhã em família quanto dos dias de home office e das noites entre amigos.

O jantar
O jantar
O jantar

No fim, por mais que a função principal das salas de jantar modernas não seja sediar as refeições em família, é interessante que a mesa ainda seja um mobiliário tão importante para nosso convívio social e do dia a dia. Por isso mesmo que projetamos salas de jantar já pensando naquelas pessoas que irão se sentar ali para conversar num dia de festa, com aquele cantinho especial para fazer um expresso depois do almoço e para servir uma taça de gin tônica no happy hour, nos cenários que serão criados naquele ambiente e os diversos tipos de iluminação que ele pode precisar e até onde guardar toda essas louças, toalhas e talheres que só usamos nas grandes festas de fim de ano.

A sala de jantar talvez seja um ótimo exemplo de como nossa forma de viver e de usar a casa foi mudando ao longo dos anos, porque começamos a viver em espaços menores e as famílias ficaram menos numerosas, mas ainda assim todos sabemos que se sentar em conjunto, seja para comer ou jogar cartas, é uma das coisas que nos faz seres sociáveis e baseia nossa convivência, até porque todos sabemos que o melhor lugar para se ficar nas festas é perto da mesa de comidas.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O invisível

O invisível

Uma bela diferença das casas modernas para aquelas do século passado talvez nem seja o estilo, mas sim a quantidade de aparelhos eletrônicos que foram aparecendo na nossa decoração e começaram a fazer parte do cenário cotidiano. Era comum que, algumas décadas atrás, as salas tivessem sofás se encarando para as pessoas se sentarem umas de frente para as outras, porém já faz alguns anos que o layout básico das salas de tv mudou drasticamente e os assentos começaram a encarar as telas.

Não só abraçamos a modernidade como parte integral das nossas casas como também começamos a planejar a decoração para abraçar essa demanda cada vez maior de equipamentos. Painéis, nichos, prateleiras foram aparecendo para acomodar os fios e as diversas caixinhas pretas responsáveis pela TV, pelo som, automação e tantas outras funções eletrônicas que uma sala contemporânea ganhou nos últimos anos. Contudo o modernismo nos ensinou que o bom design de interiores tem que balancear a estética e a funcionalidade, fazendo nascer diversas soluções que hoje já são mais do que cotidianas para nós.

O invisível
O invisível
O invisível

As nossas estantes cheias de CDs e DVDs dos anos noventa começaram a dar lugar para aparelhos de vídeo, som e videogames e as portas ripadas ganharam o cenário pois conseguem esconder toda a bagunça sem impossibilitar o uso dos controles remotos. Também começamos a desenhar painéis nas paredes para passar a quantidade cada vez maior de fios que uma sala de TV precisa. Nossos móveis não refletem apenas o conceito estilístico do que é bonito para cada época, mas também começam a ganhar novas funções e soluções técnicas para acomodar cada vez melhor as necessidades de uma família do século XXI.

Ainda que, ao se tratar de decoração, muito se resuma a estilo e conceito, algumas das soluções que apareceram nas nossas casas são respostas as necessidades que estão em constante evolução. A resposta estilística para a tecnologia é o que nos garantiu conforto ao viver em meio às máquinas, naturalmente frias e robóticas, isso porque quando nossa casa começou a ganhar cada vez mais aparelhos o design foi o responsável por não tornar os ambientes parecidos com uma fábrica ou um laboratório, mantendo o conforto visual. Portanto, não só a disposição dos móveis surge como uma nova forma de usar esses ambientes, mas também o desenho deles não é por acaso.

O invisível

Esse apreço que temos com cada projeto não tem só função estética, por trás dos painéis e portas ripadas, prateleiras iluminadas ou cantos arredondados, nichos e mesas de centro existe uma grande infraestrutura para que a casa moderna tenha todas as suas funcionalidades, usamos do recurso estético para fazer com que a TV ligue e que esteja conectada ao aparelho de som no teto e ao comando de voz da casa, para que a pessoa sentada no sofá consiga jogar videogame ou mudar de canal sem precisar deixar os equipamentos a mostra, para a iluminação ser suficientemente clara para que as pessoas possam ler um livro mas também suficientemente escura para proporcionar um clima aconchegante, e são esses detalhes que transformam a casa em um verdadeiro lar.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O Sofá

O Sofá

Casualmente já me questionei por que temos o costume de entrar em casa sempre pela sala de estar, não que isso seja uma regra talhada em pedra pois inúmeros são os exemplos de casas, lofts e studios que a entrada é por uma cozinha ou um hall que se distribui para os demais ambientes, porém a sala de estar é o lugar para onde a entrada se dirige, como se ao chegar em casa, a primeira parada fosse exatamente a sala de estar. A história nos diz que essa sala, destinada pro encontro e eventos sociais, é o cômodo mais antigo da casa, ou do que podemos entender por abrigo e moradia, presente até em cavernas neolíticas.

Acontece que, milhares de anos depois, estamos acostumados a organizar nossa casa por uma sala central com função social, talvez se uma pessoa do Período da Pedra Polida entrasse em um apartamento paulistano do século XXI ela conseguisse reconhecer facilmente onde as pessoas se reúnem para conversar. Ainda que, um hominídeo do período neolítico talvez não reconhecesse um sofá ou uma poltrona, ainda nos sentamos de frente um para o outro quando conversamos, usamos símbolos e signos que remetem ao elo e à comunicação, como círculos desenhados no tapete, mesas de centro redondas, tapetes e pufes circulares. Também remetemos esses espaços ao conforto com mantas, almofadas, carpetes e acessórios de tecido que aquecem o ambiente.

O Sofá
O Sofá
O Sofá

Estar junto, conviver, compartilhar e todas essas atividades sociais só podem ser extremamente importantes na nossa sociedade para a gente resistir um hábito por tanto tempo, mesmo que não seja uma função vital como comer ou usar o banheiro, e esse fenômeno social que nos torna tão adeptos da convivência compartilhada nos faz tão bem que mesmo aqueles que moram sozinhos guardam espaços para receber visitas, ainda que seja em um sofá-cama de um studio compacto. De certa maneira, se reunir em algum lugar cômodo com pessoas queridas e apreciar uma vista bonita não é um hábito assim tão moderno e nossas casas só remetem a essas sensações porque, por alguma razão, esse hábito tem sido algo muito importante para o nosso conforto e bem-estar.

O Sofá

Ainda que estar junto de alguém não necessariamente precise estar atrelado à uma sala, afinal cozinhar juntos ou assistir um filme na cama também são ótimas formas de se ter companhia, talvez a maior representação de convivência seja efetivamente um sofá, assim como o velho sofá vermelho do Central Perk, ou o sofá de Simpsons e até o famoso sofá de convidados da Oprah. Até porque, além da convivência significar muito para nós, seres humanos em sociedade, muitas vezes o melhor programa para uma noite pós trabalho é se deitar em um sofá com um cobertorzinho e assistir aquela mesma série de sempre.

O Sofá
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

Orgulho

Segundo o dicionário, o verbete orgulho indica “sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra”, é exatamente esse sentimento que é comemorado mundialmente no mês de junho, quando relembramos que em 1969 no West Village, em Nova Iorque, uma mulher transsexual quebrou o para-brisa de um carro de polícia iniciando o que seria o marco zero na luta pelos direitos LGBTQIAP+ em uma manifestação pacífica na qual ninguém morreu. Cinco décadas depois, o motim de resistência que se iniciou com uma mulher trans negra em frente ao bar Stonewall Inn é celebrado em uma Parada do Orgulho nas maiores capitais do mundo durante o mês de junho, e São Paulo pode se orgulhar se ter a maior do mundo, movimentando não apenas a economia como o turismo na cidade[1].

Orgulho

Essa comemoração da luta pelos direitos das pessoas LGBTQIAP+ acontece na capital paulista desde 1997 e ressignificou um momento de luta violenta na história da comunidade queer. Marsha P. Johnson, assim como Diana Ross, Eduardo Lafon e Silvetty Montilla, ilustram as paredes da Casa Fluida, um bar no centro de São Paulo que celebra o orgulho de ter essas pessoas revolucionárias como padroeiras para que hoje nós possamos nos reunir, amar e fluir sem medo.

O bar-restaurante, que também abriga uma galeria de arte, ocupa três andares de uma casa na Rua Bela Cintra onde acontecem shows de drags enquanto é servido o melhor drink com rapadura da capital. Os ambientes internos e externos vão criando espaços para a convivência dos frequentadores que sempre é marcada pelo show de Mahina Starlight, a drag residente da casa. Subir as escadas se transforma em uma experiência de descoberta, pois nunca se sabe se iremos encontrar um ateliê, obras penduradas nas paredes, mais mesas, um grande camarim ou até mesmo um terraço com murais de diversos artistas e uma vista da noite paulistana. As luzes difusas e essa quantidade enorme de informação e detalhes foram pontos trabalhados com carinho nesse projeto, para que a ambiência do bar fosse muito aconchegante, ainda que despertasse curiosidade aos olhos.

Orgulho
Orgulho
Orgulho

Todo o sincretismo cultural que acontece dentro dessas paredes se expressa também de maneira visual em todas as partes, a estética cabaré com ambientes muito coloridos, luz difusa e muitos mobiliários antigos cria um clima bastante interessante para esse espaço que é um pouco de muita coisa. Os detalhes em dourado vão acompanhando os três andares da casa, assim como o piso de madeira, o bar é visualmente marcado por uma bancada de mármore iluminada e a varanda tem neons e cadeiras junto aos painéis artísticos das paredes laterais. O camarim burlesco não é por acaso, qualquer um de nós pode chegar na casa buscando apenas um drink e sair montado, após um batismo drag que acontece aos finais de semana.

Orgulho

Hoje, essas pessoas queers que visitam a Casa Fluida em casais, com lares, trabalhos e vidas construídas fora dali celebram Stonewall apenas por existirem. Este virou um espaço em que chegamos buscando uma noite divertida e saímos com uma experiência de estar vivendo algo que conquistamos com luta, porém também com muito amor em celebração da diversidade. Esses símbolos de diversidade estão expressos na nossa bandeira com o vermelho simbolizando a vida, o laranja a cura, o amarelo a luz do sol, o verde a natureza, o azul a arte e o lilás o espírito, porque a cultura queer é exatamente sobre isso, sobre se expressar, viver, amar e ser amado, construir coisas e fazer o bem, é sobre fluir nesse lugar, baby.

https://www.capital.sp.gov.br/noticia/parada-do-orgulho-lgbt-se-consolida-como-a-maior-do-mundo-e-movimenta-a-economia-da-capital

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O Umbral

O Umbral

Nossa sociedade sempre foi obcecada por espaços de transição. A experiencia de entrar ou sair de um lugar, para a arquitetura, é tão importante quanto o próprio lugar em si. Desde as igrejas barrocas até os palácios a transição entre o externo e interno faz parte do que se entende por espaço construído, não só pelas características físicas dele, mas também pelo que os visitantes experienciam ao passar pelo umbral.

É interessante perceber que em casa essa sensação não é diminuída, ainda que não tenhamos grandes halls e antessalas, como em uma igreja. Vimos isso muito claramente quando precisávamos passar álcool em gel na mão e pendurar nossas máscaras sempre que vínhamos da rua, mas não podemos dizer que esse comportamento seja exatamente novo. Tirar o sapato, lavar as mãos, pendurar casacos e bolsas, entre outros, sempre fizeram parte do nosso ritual de entrar em um lugar.

O Umbral
O Umbral
O Umbral

O interessante dessa transição é que ela não tem apenas a ver com higiene, ainda que o hall de entrada seja o espaço mais propício para tirar os sapatos e lavar as mãos antes de chegar em casa. Enquanto seres sensoriais e sociais nós temos a necessidade de sentir e qualificar nossas experiencias, sejam elas entrar por um corredor baixo e pequeno para então se deparar com as abóbadas altíssimas de uma igreja gótica ou apoiar o que temos nas mãos e tirar os sapatos assim que abrimos a porta de casa para poder abraçar quem nos espera.

O grande ponto é que esse hábito humano, que existe em diversas culturas ao redor do planeta, nunca precisou de um ambiente demarcado para existir, diferente da cozinha, que é o lugar destinado a preparar alimentos e dificilmente o faremos em outro cômodo. Nossa vontade de ter experiencias nos leva a automaticamente criar transições quando entramos ou saímos, acompanhadas de rituais simples, como trancar e destrancar a porta, ou complexos, como pendurar as chaves, higienizar as mãos e se sentar para tirar os sapatos, e isso faz com que um hall de entrada vire um ambiente meio híbrido, que existe muito mais porque precisamos de um motivo para ritualizar do que por ser fisicamente delimitado.

Durante séculos as pessoas se reuniram em grupos para compartilhar conhecimentos e vivências, criando o que nós entendemos por sociedade. Uma das coisas mais legais que tiramos disso foi a capacidade de dar significados à experiencias coletivas para que elas tenham alguma importância a mais do que apenas acontecimentos. Sendo assim, é interessante a quantidade de histórias que existem ao redor de uma porta de entrada, todos os abraços de reencontro e despedida que aconteceram exatamente ali, os objetos que deixamos ao redor para não esquecermos de levar conosco, os apoios e cabides que existem apenas para nossa chegada ser mais confortável e até mesmo os hábitos de higiene que fomos construindo com o tempo. Isso porque o hall de entrada não é apenas um ambiente funcional e lógico para setorizar uma edificação, mas sim um espaço de transição que nos permite experiencias, como a de pendurar uma bolsa pesada e guardar as chaves do carro depois de um longo dia de trabalho e se preparar para ganhar um abraço de quem nos espera do lado de dentro.

O Umbral
O Umbral
O Umbral
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A surpresa

Dizem que a boa identidade visual é aquela que reconhecemos só de ver as cores ou com uma descrição extremamente abstrata, como quando digo que comi um hambúrguer no restaurante do palhaço ou que minha vó gosta de ouvir a música do rei. Entretanto, a identidade muda muito com o tempo e o que vale para uma geração nem sempre é entendido pelas outras, basta ver qualquer tentativa minha de mostrar algum meme para a minha mãe e estragar toda a piada tendo que explicar e, ainda assim, ela não achar graça alguma em nenhuma das vezes.

A surpresa

Sendo assim, interessa muito para comércios que seus espaços sejam muito bem lembrados, talvez seja necessária uma rede mundial de fast food para ser reconhecido meramente por uma coroa, mas com a ajuda da internet e das redes sociais já é possível ser a pizzaria do banco amarelo ao menos no seu bairro. Esse tipo de comunicação não serve apenas para criar uma identidade de marca, afinal enquanto arquitetos estamos tão qualificados para projetar comunicação visual de marcas quanto açougueiros para fazerem uma cirurgia cardíaca, porém estudamos cores, formas, relações de espaço e conceitos de estética e, com isso, somos capazes de fazer ambientes que se tornam memoráveis pelo que são e, aliado a isso, cria-se uma marca forte.

A surpresa

Por isso que, diferente de quando falamos dos espaços que a arquitetura cria num lar, quando se trata de projetos comerciais não existe apenas uma família com um grupo de amigos que ocasionalmente fazem visitas para viver aquele projeto, nesse caso, o projeto contempla literalmente qualquer pessoa que passar por esse estabelecimento e se sentir atraído para entrar, seja intencionalmente ou apenas por descobrir um novo café andando pela rua e sentir a curiosidade de conhecer o local.

A diferença não está somente na escala do projeto, que abarca uma quantidade maior de usos e uma intensidade maior de fluxos, mas também nos espaços em branco que a arquitetura naturalmente deixa para que novas coisas nasçam e o ocupem. A vida, que só existe depois de o projeto ser ocupado, não será mais singular, de uma pessoa, uma família ou um grupo de conhecidos, esse espaço em branco deve ser suficientemente abrangente para que qualquer tipo de pessoa em qualquer circunstância possa usar e aproveitar aquele espaço da forma que lhe for mais confortável.

A surpresa

Por isso que se torna muito interessante projetar espaços comerciais, porque o destino nem sempre é aquele que foi imaginado inicialmente em projeto, porque ainda que as funções sejam claras ou até mesmo explicadas um espaço começa a ganhar novos usos a partir do contexto social e cultural de cada usuário que passar por ali e, sendo assim, ele dificilmente será exatamente igual foi na cabeça do arquiteto e, mais ainda, certamente mudará muito com o passar do tempo.

A surpresa

Então a graça de projetar espaços comerciais está, exatamente, na surpresa de voltar ali diversas vezes com o passar do tempo e ver como as pessoas se apropriam da arquitetura de diversas maneiras que jamais poderiam ser projetadas, previstas ou induzidas. Por isso que a arquitetura é tão silenciosa quando é bem feita, porque ela sabe exatamente o tamanho dos espaços em branco que precisa deixar para permitir que os usuários se sintam confortáveis para contar suas próprias histórias naquele espaço.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A imensidão

A sociedade demorou um bom tempo para reconhecer a cor azul, isso porque diferentemente do verde, vermelho, amarelo e outras cores comuns do nosso cotidiano o azul não é abundante na natureza e, fora algumas flores e animais que tenham coloração azulada, os únicos grandes elementos azuis que as sociedades primitivas tinham contato eram o céu e o mar e, dada suas magnitudes, era difícil entende-los como algo tangível.

A Imensidão

Atualmente já se conhecem as propriedades psicológicas da cor azul, que além de se relacionar com coisas geladas por ser uma cor fria também é responsável por proporcionar paz e tranquilidade, sendo muitas vezes uma cor predominante em quartos de dormir. Essas percepções também fazem parte do nosso instinto de sobrevivência, fazendo com que sintamos estranheza e repulsa por alimentos de coloração azulada, por exemplo. Portanto, já podemos assumir que o azul virou apenas mais uma cor na nossa paleta contemporânea, mas por que ele ainda é tão fascinante?

Apesar de ter virado uma cor cotidiana ainda paramos para observar um céu azul ou um mar no horizonte, também temos nossa roubada quando encontramos pássaros ou borboletas de tons azulados chamativos, isso porque essa cor nos passa uma sensação de magnificência, exatamente por estar relacionada com as maiores coisas que conhecemos enquanto seres humanos, o céu e o mar.

A Imensidão

Sendo assim, o azul é mais do que apenas a cor que vai nos proporcionar um ambiente aconchegante para relaxar depois de um dia cansativo. Sua ausência na natureza lhe dá uma característica mais rara que desperta a curiosidade humana, basta pensar na estranheza que o filme Show de Truman causa quando Jim Carey chega até o final do céu e aquilo que parecia imenso do nosso ponto de vista acaba tendo um limite (isso sem contar todas as outras estranhezas que esse filme aborda). Portanto, ainda fica um questionamento pendente: como o azul pode ser tão aconchegante sendo uma cor tão fria? E isso não apenas por ser, de fato, uma cor fria, mas simbolicamente o calor e o frio são representados por vermelho e azul, respectivamente, portanto apesar de ser apenas mais uma cor fria o azul simboliza o frio por si só e, ainda assim, encontramos tanto aconchego nele.

A Imensidão

Talvez a resposta desse dilema está, exatamente, na relação de oposição que temos com essa sensação. Ao pensarmos em um ambiente frio, como um iglu ou uma cabana em um vale nevado, automaticamente complementamos a cena com outros elementos como uma lareira, mantas, chocolate quente e roupas de lã, portanto o aconchego não está no cenário em si mas na decoração que complementa a paisagem mental que formamos ao pensar nessa situação quase que inóspita. Com o azul é o mesmo, porque mesmo que seja uma cor fria ela é complementada pelos mesmos aconchegos citados acima, ou então sua frivolidade é reforçada ao ser relacionada com um mar refrescante em um dia de verão e um dia de sol na praia.

Por isso que azul é uma das cores mais interessantes, na minha opinião. Sua raridade abre espaço para relações muito mais complexas do que outras cores, como o verde, vermelho e amarelo e isso cria uma aura que pode ir do psicológico ao espiritual para tentar entender por que o azul chama tanto nossa atenção.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A família

Recentemente me mudei para um apartamento novo no qual não tinha número na porta. Provavelmente deve ter caído com o tempo, ou algum proprietário tirou por alguma razão estética ou cabalística, acontece que ainda sendo muito simples achar o apartamento dezoito apenas seguindo a sequência de portas no corredor sempre existe um certo receio das visitas em tocar minha campainha na primeira vez que vêm a minha casa. Por isso decidi pendurar uma foto da minha família na porta, nela estou e meu namorado junto da nossa gata, Pisco, parecendo um pãozinho preto com olhos amarelos e apenas uma orelha.

A família

Com isso me perguntei como seriam as outras famílias desse prédio, afinal conheço poucos vizinhos, mas já vi diversas configurações de famílias morando num apartamento igual ao meu. Existe a mãe que mora com duas filhas no meu andar e a família de colegas de faculdade que dividem apartamento no andar de cima, tem uma família de namorados que se dividem entre São Paulo e Rio de Janeiro no quinto andar e a família de um casal com o cachorro Joaquim que sempre me cheira quando nos trombamos na entrada do prédio. É interessante pensar como essas tantas famílias vivem, comem, dormem e compartilham o espaço que eu compartilho com o Guilherme e a Pisco, algumas delas dividem quarto, algumas têm camas de pets, alguns pets dormem embrulhados na cama de casal (nesse caso, a Pisco), algumas fazem refeições na mesa e outras em videochamada com quem está longe, tudo isso nos mesmos cinquenta metros quadrados que eu moro.

A família

Porém não sei se uma família é meramente composta por quem vive junto, acho que existe um laço a mais que torna um grupo familiar ou não, é um afeto embrulhado com cuidado e com uma pitada de preocupação, por isso que a nossa família vai se dividindo em casas, cidades, estados e países e se num dia estamos tomando vinho juntos na mesa no outro estamos cozinhando enquanto fazemos uma videochamada para a Noruega. Mas apesar de tudo isso, muito se fala que o lar é o lugar de reunião da família, então outro questionamento me surge: como tantas famílias diferentes fazem para se encontrar?

Apesar das telas que juntam os que estão longe acredito que todo lar tenha seu espaço de reunião da família, seja na mesa redonda cheia de pratos ou no sofá cama que abriga uma mãe e uma irmã espremidas durante um fim de semana, nas encostados nas paredes da cozinha enquanto se prepara o almoço de domingo ou todos deitados na mesma cama de casal enquanto conversam. A questão é que, seja apenas um sofá de dois lugares ou uma sala com poltronas, televisões e brinquedos, todas as famílias dão um jeito de se reunir quando existe um lar.

A família

Portanto, concluímos que a arquitetura não pode projetar tudo, afinal ela deixa espaços que devem ser preenchidos por aqueles que usam o projeto e por isso que um projeto nunca se finaliza. Afinal, quando se quer projetar um lar, é preciso deixar um grande espaço vazio para caber todo o afeto que existe entre pais, mães, filhos, avós, tios, animais, amigos, sobrinhos ou qualquer outra configuração, seja grande ou pequena, de todos os tipos de família que existem.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A selva

A Selva

Imagino como deve ser o mundo para alguém que acabou de nascer, um lugar onde simplesmente e absolutamente tudo que existe é desconhecido, nascer é como aquele filme chamado ‘Na natureza selvagem’ no qual o protagonista decide abdicar da vida urbana para ir viver no meio de uma mata e precisa reaprender coisas básicas como novas maneiras de se alimentar, se entreter e se limpar.

Certamente vir ao mundo deve ser muito menos dramático que no filme, no qual o personagem se encontra diante do desafio de literalmente ter que caçar a própria comida, isso porque passamos ao menos uma boa década tendo alguém que vai preparar nosso almoço e nos levar pro banho na hora certa, entretanto todos aqueles sons, cores e texturas novas não existiam no nosso casulo placentário e, portanto, essa primeira mudança de casa traz consigo uma nova maneira de ver a vida, só que sem manual de instruções ou dicionário.

A Selva
A Selva
A Selva

De uma hora pra outra somos jogados aos leões e precisamos achar uma árvore para nos trazer sombra e abrigo, aprendemos logo que, assim como as girafas, precisamos usar nossos novos pescoços para ir atrás da comida (que por sorte vai chegar diretamente na nossa boca e não no topo de uma árvore) mas também que seremos pendurados como macacos nos braços de uma mãe toda vez que chorarmos de dor de barriga. Vamos começar a andar igual patinhos, indo atrás daqueles novos adultos que aprenderemos mais tarde a chamar de pais, mães, avós ou tias e infelizmente não poderemos ser como um flamingo e apenas enfiar a cabeça na terra quando precisarmos passar por alguma situação que não nos agrade. Com o tempo, vamos aprendendo a voar cada vez mais alto e as onças que antes pareciam perigos iminentes passam a ser apenas algo a mais nesse novo mundo que chamamos de casa, nele terão várias cores e plantas novas e teremos que ser cuidadosos para saber aquelas que poderemos comer ou não, com sorte, sempre teremos um adulto pra auxiliar nessa jornada.

Porém o mais interessante de tudo isso é que, mesmo o mundo parecendo uma natureza selvagem, temos bastante tempo para nos adaptar. Ainda que tudo seja novo, bonito e levemente assustador poderemos sempre contar com uma cama quentinha para nos esconder toda vez que as energias de exploração se esgotarem e teremos em nosso alcance milhões de historinhas que serão lidas pelo nosso adulto de confiança, fazendo nossa cabeça viajar ainda mais em mundos que todavia sequer conhecemos. Na pior das hipóteses, quando a agonia for grande, a cadeira de balanço pode tentar imitar nosso casulo-lar, de onde viemos, não para que a gente saia desse mundo, mas para que nos lembremos que nada é tão assustador que não pode ser enfrentado, que as vezes precisamos voltar um tiquinho para nos encontrarmos e poder prosseguir nessa exploração que é a vida.

A Selva

Apesar de assustador, a vida vai ser um mar de novidades que vai alimentar qualquer mente curiosa e nos fará querer ir cada vez mais longe, até o momento que viremos os reis da nossa própria selva particular. A partir daí, os tigres e onças não serão mais ameaças, saberemos bem que não podemos tocar no porco espinho e os leões servirão como amigos protetores, cresceremos tanto que já não vai mais parecer que estamos desamparados, muito pelo contrário, começaremos a ter saudades de toda aquela aventura que foi viver e iremos estampar isso pelas paredes do nosso novo lar na terra, para nos lembrarmos sempre de como foi demais chegar nesse mundo como um pequeno aventureiro.

Por isso que digo, nascer deve ser a maior aventura de nossas vidas, isso porque quando alguém nasce todos ao redor também renascem. Garcia Marquez dizia que não nascemos apenas quando somos paridos mas que a vida nos obriga a parirmos a nós mesmos outras e outras tantas vezes durante nossa jornada, talvez a selva seja menor e menos assustadora a cada novo renascimento, mas é a vontade de descobrir o que pode ter de novo que nos faz nascer mais uma e mais outra e uma outra vez mais.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O imã de geladeira

O imã de geladeira

Voltar pra casa talvez seja uma das sensações mais prazerosas que temos, não apenas porque existe toda a ideia de conforto e aconchego em se estar num lugar familiar, mas também porque nosso travesseiro já abraça nossa cabeça perfeitamente, nossa xícara lascada na ponta deixa o café mais gostoso, nossa mesa levemente bamba já está milimetricamente ajustada para não pender para a esquerda e, ainda que tudo isso não passe de meros detalhes, a familiaridade de lidar com esses objetos cotidianamente é quase como um abraço quentinho em um dia frio. Por isso que viajar é incrível, a sensação de viver em um lugar que não é nosso com a ideia de que quando aquilo acabar poderemos levar toda essa experiência para o nosso lugar seguro é inestimável.

O imã de geladeira
O imã de geladeira
O imã de geladeira

Também existe uma dualidade quando conhecemos o diferente, sempre que alguém sai do país, ou até mesmo do estado, o assunto sobre o destino ter uma grande diferença cultural, arquitetônica, gastronômica é levantado, entretanto quando viajamos o diferente sempre somos nós e a experiência de poder contar as impressões que o destino nos causa só existe após voltamos para o lugar familiar, portanto, voltar para casa pode ou não ser a melhor parte da viagem, entretanto é um passo significativo para assimilar tudo que aconteceu nessa aventura de explorar o desconhecido. Ou seja, comer crepes em Paris no café da manhã e almoçar uma pizza individual em Nápoles só vai ser uma experiência exótica quando voltarmos para nossas casas e contarmos para os amigos como aquela pizza, do tamanho de um prato, era incrivelmente grande para uma pessoa sozinha. As fotos ainda ajudam a evocar as memórias e trazer um pouco desse gostinho para os que não foram e, talvez a parte mais empolgante para aqueles que ficaram aqui enquanto um conhecido saia de viagem, os souvenires e bibelôs que sempre trazemos como lembrança são, sem dúvida, a forma mais fidedigna de tornar essa experiência mais familiar.

Por isso é tão interessante quando nossa casa emoldura fotos de paisagens que não são cotidianas, miniaturas de monumentos enfeitam as prateleiras e até imãs de geladeira formam uma linha do tempo, mais ainda, quando nossas experiências inundam nosso repertório e, de uma hora para outra, nossa sala de jantar ganha uma releitura tropical das boiseries francesas, a adega vira um pedacinho do Chile e até mesmo o espacinho do café passa a ser uma passagem no tempo para Lisboa com xícaras adornadas. No fim, viajar é necessário para criar recordações e, sempre que elas aparecerem, termos histórias para contar.

O imã de geladeira

Pode parecer bobeira que um pratinho pendurado na parede com duas pessoas dançando tango desenhadas em tinta acrílica se compare à experiência de caminhar no Porto Madero e ver a silhueta elegante da Puente de la Mujer, e de fato é, nada vai ser igual ir até um lugar diferente e ver, ouvir e sentir aquele espaço, por isso mesmo gastamos tanto tempo e dinheiro para fazer essas travessias transatlânticas, porém essas pequenas recordações cotidianas são mais do que meros bibelôs, a função estética e ornamental muitas vezes não é a principal ou sequer existe, essas coisinhas estão ali para que, todo dia depois de acordar e ir lavar o rosto a gente passe pelo globo de neve da Times Square e se lembre do frio que era ver a bola descendo no meio da neve enquanto todos faziam uma contagem regressiva para o ano de dois mil e treze, muito mais do que um enfeite, a nossa casa muitas vezes é um livro cheio de histórias esperando um ouvido atento para escutá-las.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O trono

As poltronas eram um símbolo de poder e riqueza nas sociedades antigas, reservadas para os reis e outros membros da nobreza. Em cidades agrícolas e com poucas opções de mão de obra, os artesãos que faziam móveis domésticos que se limitavam a formas simples e as casas eram mobiliadas apenas com bancos, mesas e camas, e no máximo, cadeiras de encosto. Foi com a chegada da industrialização que peças começaram a ser produzidas em larga escala e com valor acessível, dessa forma era possível aumentar o repertório de itens que mobiliavam uma casa camponesa, e assim, começar a imitar as formas que eram utilizadas pela nobreza.

Apesar de ter se tornado um objeto de decoração muito mais comum na casa moderna, a poltrona ainda resguarda sua ideia inicial de lugar individual de conforto, diferente de sofás que socializam e compartilham o espaço. A poltrona ainda mantém a soberania daquele que a utiliza, talvez seja por isso que elas viraram grande objeto de destaque do design e nomes famosos do mundo da arquitetura quiseram ter seus próprios modelos assinados, pois apesar de ser apenas mais um mobiliário ela ainda é a linha direta entre o arquiteto e o usuário único e singular, como se ao sentar-se você pudesse pegar para si todo o pensamento por trás daquela peça e usá-lo a seu bel prazer sem precisar compartilhar.

Existiram também diversas maneiras de pensar cadeiras e poltronas, Lina Bo Bardi, a brilhante arquiteta que projetou o Sesc Pompéia e o MASP, ressaltava a importância da rigidez do mobiliário para que o usuário sentasse com uma posição ereta e elegante, claramente essa ideologia não era compartilhada por Sérgio Rodrigues quando desenhou a poltrona Mole que te abraça como se fosse te engolir. Isso mostra como foi importante a discussão de conforto e ergonomia entre os arquitetos, pois não apenas era uma forma de estampar sua marca e sua visão de design em um mobiliário de uso individual, mas também resumia todo o pensamento de como aquela pessoa entendia uma das atividades mais prazerosas do nosso cotidiano: o descanso.

O Trono
O Trono
O Trono

E apesar do mundo ter mudado muito e as casas terem se transformado de tamanho, espaço e disposição, ainda achamos diversas formas de incorporar o descanso dentro do lar, casualmente costumam aparecer em cantinhos de leitura, com mesas laterais, mantas, tapetes e luminárias indiretas, reforçando a ideia do conforto da peça, porém quando falta canto dentro da casa ela pode ocupar outros espaços, como o teto, e resinificar totalmente a ideia de repouso.

A grande dualidade dessa questão é que para acessá-la é preciso subir uma escada na parede, tarefa nem sempre tão confortável, porém que se justifica ao chegar no topo e poder se estirar numa rede suspensa que olha para o horizonte paulistano que emoldura a varanda. Novamente, apenas uma pessoa cabe aqui, não dizendo que duas não possam usá-la simultaneamente, mas é pensado para que alguém tenha o seu momento, o seu descanso, a sua leitura e isso é ainda mais interessante ao tirá-la do piso, porque é evidenciado a importância de se ter um tempo individual ainda que o espaço não comporte tantos cômodos, como é o caso desse estúdio específico. Por fim, é inegável que ela ainda é uma forma de representar o poder, mas não o poder soberano e nobre como outrora foi, mas sim o poder estar sozinho, poder descansar, poder ser a própria companhia, porque a poltrona nada mais é, do que nosso próprio trono.

O Trono
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O espaço

O Espaço

A discussão sobre o que é mínimo não é tão recente quanto parece, desde a consagrada Bauhaus, no nascimento do movimento moderno, que se discute sobre o conceito de minimalismo com a icônica citação de Mies van der Rohe de que “menos é mais”. Contudo o menos daquela época se resumia a decoração e ornamentos em construções colossais, a própria Villa Savoye, suprassumo da obra modernista projetada por Le Corbusier em Poissy, na França, uma magnífica casa de veraneio com três pavimentos.

Com a virada do século e, principalmente, depois de quase dois anos dentro de casa, renovamos drasticamente o conceito de mínimo necessário. Atualmente São Paulo, assim como outras capitais no Brasil e no mundo, é lar de diversos estúdios de pouco mais de vinte metros quadrados, frutos de uma cidade com muita gente morando e precisando de espaço para todos, contudo o novo desafio da arquitetura é provar que esses meros dois cômodos podem abrigar todas as funções do morar com plena tranquilidade, o aliado dessa discussão agora não é mais a estética ou a pureza de materiais, mas sim a funcionalidade e a criatividade.

O espaço comunal vira o coração da casa, dormir, descontrair, comer e trabalhar, após o grande aumento do home office, passam a compartilhar o mesmo salão que precisa não mais de um espaço individual para cada uma das funções, mas sim entender a forma como elas se organizam ao longo do dia. A cama retrátil desce sobre um sofá sem braços, permitindo uma noite tranquila de sono, porém com o raiar do dia ela vira um painel e a sala ganha um espaço de sentar, assim como a cortina que, para ocupar menos espaço, é instalada no vão da porta, usando da edificação como suporte e não perdendo o conforto de um quarto escuro durante todo o sono. Os armários também não guardam apenas roupas, eles compartilham seu espaço com tudo aquilo que precisa de armazenamento em portas que emolduram o grande bloco de marcenaria, esse móvel é quase que um coração que bombeia para o apartamento os nutrientes necessários para cada hora do dia.

O Espaço
O Espaço
O Espaço

a cozinha passa a ser o grande dilema desse tipo de apartamento, a rotina moderna aliada à tecnologia já não precisa mais de grandes salões para o preparo de alimento, muito menos de edículas afastadas por conta do mau cheiro, depuradores não apenas são aliados para que o travesseiro não tenha o cheiro do almoço pelo resto da semana como também se integram na marcenaria sem interrupções visuais, as gavetas também se subdividem internamente para garantir que tudo pode ser estocado sem perder o desenho limpo da marcenaria e a mesa de refeições, uma importante extensão da bancada, serve como apoio no preparo de alimentos e também mesa de trabalho, basta mudar o que se coloca sobre ela. Pensando ainda no advento do home office, é preciso lembrar que agora o fundo da mesa de trabalho é tão importante quanto o espaço de apoio para o notebook, nossas interações com colegas são constantemente emolduradas pelo que se vê atrás de nós durante as chamadas de vídeo e, por isso, a geladeira ganha uma cortina de cordas que garante um aspecto mais interessante para o cenário, para um modernista purista pode ser puro ornamento mas para o século XXI nada mais é do que a forma de mostrar criatividade e atenção a todos os pontos do lar para que ele sirva efetivamente como uma casa multifuncional e não apenas um emaranhado de atividades.

A varanda assume um papel importante também, o respiro verde dessa casa compacta com uma bela vista é fundamental para pausas, tomar um ar ou só ler um livro, atividade que também é executada na poltrona de rede que fica suspensa, aproveitando o pé direito alto. No fim, o modernismo se mostra na ocupação de todos os espaços disponíveis da forma mais criativa, quando o piso não basta nos apegamos às paredes e, quando essas são insuficientes, vamos para o teto.

O Espaço

Ainda que eu mencione que a pureza dos materiais não seja mais o fundamental da doutrina moderna é equivocado dizer que ela não é pensada como elemento de projeto. Em um espaço tão compacto a unanimidade e linearidade de elementos é fundamental para a ambientação, queremos, afinal, aconchego e não caos, por isso as linhas retas são muito bem marcadas, assim como os planos de cores e o respiro que os móveis têm ao não chegar no teto alto, tudo isso meticulosamente pensado para que a casa compacta não apenas funcione plenamente em todos os seus atributos, mas para que seja, em seu cerne, um lar.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O refúgio

O Refúgio

Sabe aquele clima de fim de ano que todos no escritório já vão trabalhar com a mala de viagem e a roupa de banho por baixo do terno e gravata porque, dali, vão direto para a praia? Aqueles tempos que já imaginamos as notícias da Marginal parada desde a Ponte das Bandeiras e o litoral cheio de turistas. Eu, particularmente, adoro essa época que a rotina se quebra e, de repente, a cidade caótica já não tem mais tanto caos e até os ônibus estão vazios as oito da manhã de terça feira.

Apesar de muito se falar sobre sair de São Paulo, e digo São Paulo por estar escrevendo daqui, mas o mesmo se aplicaria a Porto Alegre ou Salvador, sempre queremos voltar, seja pelo trabalho, pelas relações que criamos, pelos museus e casas de show que frequentamos sexta à noite, pela Paulista e pelo Minhocão de domingo e tantas outras coisas que nos fazem amar essa cidade, portanto, mesmo adorando ir embora de vez em quando voltar é sempre bom.

O Refúgio

Porém existem alguns tesouros escondidos nessa selva de pedras, existem pessoas que, mesmo sem a mala de viagem e a roupa de banho, têm a sensação de estar saindo da cidade todo dia quando voltam pra casa, com o benefício de não pegar a Marginal parada e sequer sair da zona sul. As vezes é até difícil lembrar que existe calma, tranquilidade e casas com quintal bem no meio do Cambuci mas é exatamente isso que as faz um oásis urbano. A janta se torna um convite para ver as estrelas e o café da manhã vira um momento de regar as plantas, qualquer chance no meio do dia de conversar com a vizinha por cima do muro é uma oportunidade de ganhar uma mudinha de jiboia ou um pedaço de torta de maçã. Diferente das janelas que observam a cidade, esse quintalzinho é observado por ela, como se fosse uma joia incrustrada no mar de concreto.

Quando a Europa mudou de cenário no pós revolução industrial houveram muitos debates sobre o futuro das cidades, em meio a uma Londres suja e poluída Ebenezer Howard foi o teórico que propôs que a cidade fosse intercalada com grandes áreas verdes nos bairros residenciais, projeto que ficou conhecido como a Cidade Jardim. Acontece que a cidade é um organismo vivo, ela cresce, amadurece e faz relações de maneira espontânea e única, muito mais como um caos planejado, mesmo com todo o conhecimento teórico de urbanismo moderno temos a mera capacidade de direcionar o crescimento urbano, mas não o controlar. Entretanto a Cidade Jardim permanece até hoje no nosso ideário e é uma busca constante de moradores de grandes centros urbanos. Talvez seja exatamente por isso que uns poucos metros quadrados de grama cobertos apenas pela abóbada celeste sejam de tamanho valor para nós.

Apesar do magnífico avanço tecnológico, apesar das máquinas, computadores e arranha-céus, apesar da rapidez e do dinamismo ainda somos orgânicos, somos seres de carne, osso e sangue e nosso cérebro é dividido entre racionalidade e emoções, ainda que saibamos o que gostamos e o que nos tira do sério a intensidade dessas emoções pode ser alterada se estamos em um ambiente estressante e artificial ou pisando descalço na grama. Mais ainda em tempos de isolamento, no momento em que todos os que puderam se trancaram em suas casas e pararam de frequentar a cidade as varandas foram a grande salvação de alguns, viraram talvez o cômodo mais importante de muitas casas, especialmente para tomar um solzinho depois do almoço, imagine então tomar o mesmo solzinho deitado na grama de um quintalzinho que, apesar do bucolismo está a poucos quilômetros da Avenida Paulista.

O Refúgio

Acredito que existam diversas maneiras de morar na cidade grande, nem todas estão relacionadas com o tipo de moradia pois em uma metrópole como São Paulo o apartamento passa a ser o mais comum para quem vive próximo ao centro expandido da cidade, contudo ainda me enche os olhos encontrar esses pedacinhos de paz no meio do trânsito e do barulho, não só pelo privilégio de ter o seu próprio Ibirapuera a poucos metros da porta da cozinha mas porque, no fim, percebemos que não é o que nos rodeia que tem o maior valor, mas o ambiente que ali é criado é que realmente importa.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A vista

A Vista

Se formos procurar um dicionário com o repertório de palavras dos arquitetos “ampliar” e “integrar” talvez estejam entre os verbetes mais usados no dia-a-dia. Acontece que, quando estamos pensando em conceber um espaço, a ideia é de que tudo se converse para que realmente haja uma história e não seja apenas um apanhado de móveis e objetos sem liga. Se fosse em um bolo a integração seria a reação entre o glúten da farinha, o ovo e o fermento que vai fazer aquilo tudo virar uma massa só e crescer, ela é responsável por trazer uma característica de todo. Já a ampliação é a noz moscada, a canela e o gengibre que vão realçar o sabor do chocolate e trazer novas sensações quando comemos, aquilo que muda nossa perspectiva do ambiente e, muitas vezes, a forma com que o usamos.

Veja bem, ampliar nem sempre significa precisar de mais espaço. Existe uma ideia de que é necessário ambientes grandes, salas suntuosas e espaçosas para não sentir claustrofobia, contudo nossa noção de espaço apertado não se fixa somente no tamanho do ambiente. Janelas, altura do pé direito, cores, móveis, tapetes, iluminação e uma série de outras composições mudam a percepção de amplitude. Se ao sair do elevador nos deparamos com um hall cheio de espelhos temos uma sensação de amplitude por conta do reflexo, mas quando passamos pela porta e nos deparamos com a vista da varanda, na outra ponta da sala, que enquadra uma paisagem linda de São Paulo, a sensação de amplitude estará muito mais presente na paisagem do que no tamanho da sala em si.

A Vista
A Vista
A Vista

Talvez seja daí que veio nossa vontade de integrar cozinhas com sala na maioria das vezes, esse desejo quase que universal não diz respeito meramente à amplitude visual de se cozinhar assistindo TV ou conversando com quem está no sofá, mas também é com a ausência de barreiras que deixamos de ter várias histórias fragmentadas a ser contadas e passamos a ter uma só. Enquanto deitamos preguiçosamente assistindo pela sétima vez A Fantástica Fábrica de Chocolate que passa na TV da sala existe alguém na mesa de jantar fazendo a lição de casa, na varanda outra pessoa estará admirando a vista enquanto uma quarta estará no fogão preparando omeletes e salada para o almoço, todas conversam ao mesmo tempo que todas escutam as sacadas irônicas de Willy Wonka e sentem o cheiro da salsinha fresca na frigideira invadir todo o espaço.

A Vista

Contudo a integração não se dá apenas pela ausência, seja de portas, paredes ou barreiras. Ainda que se tenha tamanho, vista e aberturas é possível sentir-se apertado em alguns cantos, espaços que viram meras passagens por conta da largura estreita ou por não se ter uma função. Felizmente, para nós, quando Le Corbusier consagra a arquitetura moderna numa Europa devastada no pós guerra ele traz as fitas como o suprassumo da modernidade, a fita pode ser qualquer coisa que seja mais comprida do que larga, seja uma janela que rasga toda a fachada ou uma mesa que sai da cozinha e chega até a varanda sem nenhum pé, apenas abraçada ao pilar que a sustenta. As fitas têm a função além de estética, elas permitem que a gente traga um elemento de lá pra cá mesmo quando temos pouca largura de passagem e garante que tudo será conectado, sem deixar nenhuma pelota de farinha no nosso bolo.

A Vista

Sendo assim, a orquestra da vida doméstica é tocada a diversas mãos fazendo diversas coisas ao mesmo tempo em diversos lugares diferentes, ela começa tirando abobrinhas da geladeira e as fatiando ao lado da pia da cozinha para logo enviá-las para a varanda através da mesa em fita, ali elas são embebidas em molho e entram na churrasqueira até a crosta crocante se formar, as abobrinhas, então, irão para a mesa de jantar junto com o arroz e as fritas e o cheiro que se espalha por todos os cantos irá chamar a todos que estiverem assistindo TV ou lendo um livro em alguma poltrona do cômodo. O ápice da peça será o momento em que todos se sentam juntos à mesa e o ambiente se inunda com o tilintar de garfos e facas, risadas e vozes sobrepostas até que não sobre mais nenhuma batata frita na travessa. Para a alegria de todos, nessa orquestra não existe cortina que se fecha com o fim da apresentação, o projeto de arquitetura foi perspicaz em lembrar que, depois que a janta acaba, a cozinha estará logo ali e todos poderão ajudar a lavar a louça.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O escritório

O Escritório

É muito comum buscar uma forma de o ambiente transmitir a mensagem que queremos passar para quem o visita, especialmente quando se trata de um escritório ou algum espaço comercial onde se tem a intenção de vender uma imagem ao cliente que está ali pela primeira vez. São diversas as maneiras que podemos contar uma história sem sequer abrir a boca, as cores nas paredes e os quadros pendurados, fotos e lembranças de viagens, diplomas, flores e plantas e uma biblioteca pessoal dizem muito a respeito de quem usa o ambiente e como o usa.

Nessa busca por respostas a arquitetura muitas vezes disseca o usuário para poder expressar quem aquela pessoa é nas cores, mobiliários e decorações que estão ao redor, seja para que a pessoa se identifique no espaço e se sinta em casa, mesmo que esteja em uma pizzaria no happy hour com os colegas de trabalho, ou então sinta firmeza e convicção no que é dito ali, quando se trata de um cliente visitando o escritório do seu advogado, por exemplo.

O Escritório

Especialmente nesse segundo caso existe muita história para contar dos porquês de cada coisa. Marco Vitruvio (o mesmo que serve de inspiração para o Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci) escreveu um tratado chamado De Architectura no qual falava das características que tornavam algo arquitetura ou não, dentre elas, as três principais eram firmitas, utilitas e venustas. Firmeza, utilidade de beleza eram indispensáveis para qualquer arquitetura pois ela precisa ficar de pé e sem correr o risco de colapsar, precisa ter alguma utilidade além de ornamental para que faça sentido de ser inserida naquele contexto e precisa ser atraente, harmônica e bela. Séculos se passaram e ainda utilizamos a tríade vitruviana na execução de projetos de arquitetura em diversas escalas, voltando ao escritório do arquiteto em questão, quando o cliente sentar na mesa de reunião poderá se impressionar com a beleza do mármore polido, a venustas, a solidez e frieza da pedra trarão ainda mais credibilidade para a fala daquele advogado que estará apresentando seu trabalho (firmitas) e, ao final de uma longa explicação, utilizará a superfície brilhante para assinar o contrato (utilitas).

Com isso vamos criando toda uma espacialidade que se apoia nesse tripé conceitual, desde a pia da copa que apoia o café e bolachas até a estante de livros com painéis em muxarabi que buscam na arquitetura árabe suas referencias para a composição da peça, detalhes de marcenaria nas mesas de trabalho que além da função estética organizam os objetos e permitem uma clara leitura do que acontece naquele espaço, plantas, quadros e o próprio painel de madeira que, além de decorar e acalentar buscam adicionar ao escritório sólido uma escala humana e frágil, que precisa de sol e água assim como nós para se manter viva.

O Escritório

Portanto não é apenas de memórias que vive um ambiente, a história que ele conta pode ser utilizada para amplificar, reforçar, autenticar e qualificar o discurso que ali acontece. Sentir a pedra fria contra a pele enquanto escuta um argumento de defesa te leva a enxergar aquela fala dentro do sólido pilar ético e imparcial do direito, combinar um elemento de arquitetura que saiu das arábias e viajou pela Europa até chegar no Brasil junto com uma estante de livros dá a ela não apenas um caráter estético e organizador mas extrapola o conhecimento que está dentro daquelas capas para que o visitante também veja suas referencias sem sequer ter lido na vida algum livro sobre arquitetura moura. As memórias ainda adicionam uma camada nova acima de tudo isso que dá liga a esse monte de buscas que vão formando um ambiente multicultural, são elas que vão atribuir o caráter pessoal para sabermos que ali existe um ser humano de carne o osso ocupando, usando e vivendo, irá diferenciar o que é orgânico do que é apenas um mostruário de loja de departamentos, que apesar de ser belo carece de calor.

O Escritório
O Escritório
O Escritório

Enfim, existe muita margem para contar história na arquitetura, é por isso que preservamos patrimônios que as vezes pouco entendemos a razão dada a simplicidade da composição, por isso que mantemos vivos museus e casas de personalidades que marcaram nossa história, por isso ainda andamos na rua e, frequentemente, olhamos para cima e enxergamos a imensidão de prédios ao redor. Se a vida é feita de histórias a arquitetura é quem vai montar um novo cenário para cada uma.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A arte

A Arte

Sabe quantos anos têm os museus? Bom, até mesmo o famoso Louvre, que abriga relíquias milenares, é uma criança ao se comparar com a idade do seu acervo, que data de muito antes de se pensar em guardar a arte em espaços para a visitação do público. Os museus na forma como conhecemos hoje passam a existir a partir do século XVII e são frutos de doações de coleções particulares, a Universidade de Oxford foi responsável por montar o primeiro museu moderno e futuramente abriu espaço para o famoso Museu Britânico. Já em terras tupiniquins a literatura remonta os primórdios da museologia na criação da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1826.

A Arte

A palavra “museu” vem do grego e era utilizada para designar o templo das musas, ou seja, o lugar onde se estudava as belas artes, com isso o termo passou a ter relação com a arte sacra e lugares onde se expunham objetos de adoração, como os Museus do Vaticano. A concepção da ideia do que era arte apta para ser exposta passa por uma nova discussão em tempos modernos quando Mário de Andrade, em 1937, cria o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, posteriormente renomeado para IPHAN) em cuja definição de o que seria digno de ser considerado patrimônio histórico artístico não menciona edifícios, esculturas, pinturas e objetos, mas sim “das coisas com importância coletiva social, artística, histórica, política e econômica”. Esse ato de disruptividade que o intelectual trazia desde a Semana de Arte Moderna de 1922 é um passo importante para entender que arte não são apenas quadros e esculturas de museus e sim coisas de valor para uma sociedade, e ao definir arte como coisa concluía-se que arte podia ser qualquer coisa.

A rebeldia de Mário de Andrade não é um acaso, o visionário pensador que compartilhou sua ideologia com os maiores nomes da intelectualidade brasileira da época, como sua esposa Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Gustavo Capanema, trazia na sua provocação uma reflexão cotidiana para nós até hoje, sejamos nós frequentadores assíduos dos museus, pinacotecas e gliptotecas mais relevantes para a história da arte moderna ou grandes apreciadores de fotos amadoras, bibelôs e souvenires de aeroportos, gravuras de lojas de departamento e qualquer outro adorno que faz nossa casa ter algum valor simbólico, artístico, político e econômico para nós. Ao definir arte como coisa nos confrontamos com a imensidade de objetos que temos ao nosso redor e não possuem uma função singular, como por exemplo o copo que uso para beber água, a caneta que anoto minhas pesquisas para esse texto ou até mesmo o computador em que estou digitando nesse exato momento, falo também das almofadas com formas geométricas e franjas coloridas, dos quadros nas paredes com gravuras compradas em lojas de departamento ou trazidas como cartão postal de uma viagem para Montevidéu, do copinho de tequila que veio de Dublin e hoje enfeita a prateleira da sala junto à uma pedra vulcânica do Chile e uma miniatura do Congresso Nacional de Brasília.

A Arte

A arte invade nossa casa a partir do momento que ela conta uma história, quando depois de duas taças de vinho a mesa vira palco de um acalorado debate para entender o que significam as manchas azul claras no quadro atrás do banco da sala e quais imagens cada um consegue enxergar na pintura abstrata. Invade novamente toda vez que é a história sobre como o pratinho com duas pessoas dançando tango pintadas junto com o nome “Buenos Aires” chegou até o meu hall de entrada é contada. E se estamos falando de coisas que importam e têm valor, a arte também é quando estou na pia fatiando as batatas que serão assadas com páprica defumada, a especialidade que sempre sirvo para as visitas e todos amam, é arte a varanda onde fica minha lavanderia e o momento em que os convidados fazem uma pausa para fumar enquanto eu lavo a louça ou preparo uma sobremesa, é arte minha mãe e avó jogando tranca na mesa da sala até muito tarde da noite em todo fim de ano que nos reunimos.

Ou seja, Mário de Andrade nos deu uma coisa muito especial, o poder de dar valor à detalhes que importam muito para nosso auto entendimento, a “artilização” de objetos que não estariam num museu assim como pinturas dignas de estar em um dos cavaletes de cristal do MASP. Ainda que seja apenas a forma como organizamos as almofadas no sofá ou o oficio de preparar um prato de macarrão para um almoço em família, se existe uma beleza e conta uma história, fico feliz em saber que eu e você vivemos em uma obra de arte.

A Arte
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O café

O Café

Muito mudou na forma de trabalhar nesses últimos dois anos e grande parte de nós passou por alguma adaptação, seja na transição para o home office ou começando a usar máscaras e sentar distante dos colegas. Contudo, enquanto nossa dinâmica de trabalho virava de cabeça para baixo houve uma coisa que não saiu em momento algum do lado do computador: a xícara de café. Mesmo que o ambiente seja completamente diferente trabalhando em casa, no escritório, em um espaço de coworking ou numa mesa de parque embaixo de uma árvore com uma sombra aconchegante é bem provável que a xícara ficará ao lado do teclado, preferencialmente na esquerda para que não aconteçam acidentes quando mexermos o mouse, e em grande parte das vezes ela estará vazia apenas esperando que qualquer voz na sala faça o devido convite: “vamos ali tomar um cafezinho?”

O café talvez seja uma das poucas coisas que ainda nos traga a sensação de estarmos realmente no trabalho em meio à tantas mudanças repentinas. Para os que foram rapidamente mandados para o home office, sem ao menos poder se despedir dos colegas por tempo indeterminado, a pausa para o café traz de volta o clima descontraído de ficar em pé ao lado do bebedouro contando as aventuras do último fim de semana ou fofocando sobre a briga de quarta feira no sétimo andar. E depois de tanto tempo em uma nova rotina acredito que muitos, assim como eu, sentem falta do escritório e dos detalhes que o tornavam especial, seja uma pintura na parede que servia de fundo para várias selfies, um armário azul que alegrava o ambiente, a mesa redonda na sala de funcionários onde se jogava conversa fora no horário de almoço ou até mesmo a copa, onde alguém sempre tinha deixado um saquinho de balas ou um pote de paçocas.

O Café
O Café
O Café

Nesse tempo também vimos quartos, cantinhos na sala, espaços no corredor e até mesmo mesas da cozinha virando verdadeiros escritórios. O canto onde se apoiava a bicicleta de um dia para o outro ganhou uma mesa, dois monitores e uma impressora. A cama do quarto de hóspedes começou a ser usada para os cochilos depois do almoço e a mesa da cozinha virou um organismo vivo que hora apoia um arroz com feijão e fritas e logo em seguida diversas planilhas no Excel. E não apenas a mesa passou a ser um lugar primordial, mas também o que estava atrás da cadeira. De pinturas a vastas estantes de livros, que as vezes nos perguntamos se são realmente de verdade ou apenas um cenário. O enquadramento de alguns metros na frente da câmera do notebook virou nosso novo habitat e os colegas de trabalho, que muitas vezes apenas trocavam cumprimentos conosco, passaram a conhecer um pouco do nosso mundo particular. Junto à isso apareceram os gatos e cachorros invadindo reuniões, crianças chorando e pessoas passando apenas de toalha de banho enquanto ouvíamos sobre o desempenho do mercado financeiro.

O Café
O Café
O Café

E mesmo que mudança seja, na maioria das vezes, algo muito bom e importante para o nosso progresso a saudade de coisas pequenas ainda nos faz repetir aquele ambiente dentro de casa. E exatamente por não sabermos mais até quando esses novos formatos serão usados, ou se realmente vamos voltar aos antigos escritórios de luz branca e bebedouros com copos plásticos presos na parede, que o home office virou tão parte da nossa personalidade. Acredito que hoje já possamos falar muito de uma pessoa pelo que vemos pela câmera durante as reuniões e podemos supor mais ainda quando alguém a deixa desligada, talvez ainda exista muito para se acostumar, entender e conhecer sobre a infinidade de maneiras novas de trabalho que experimentamos em tão pouco tempo, mas apesar de tudo isso, sempre será uma alegria ouvir o barulho e sentir o cheiro de um café sendo passado.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O bolo

O Bolo

Tudo começa cerca de trinta minutos antes quando o forno é pré-aquecido, um passo que a maioria esquece mas faz grande diferença no resultado final. É durante esses trinta minutos que a cozinha branca ganha tons de ganache e creme de confeiteiro e a orquestra da batedeira se mistura ao tilintar dos potes de vidro no mármore. A ilha comprida já não tem mais um vaso de flores e os pratos do café da manhã, ela agora é palco de algumas tigelas com farinha, cacau, ovos e essência de baunilha fracionados e prontos para entrar na batedeira a qualquer minuto. Os veios cinza da pedra ganham um polvilhado de marrom e gotas de leite, a forma enfarinhada termina a obra que não tardará a ser limpa para que outro show comece ali mesmo.

Apesar de serem muito relacionados a confeitaria se difere muito da gastronomia e a precisão talvez seja o mais importante, enquanto costumamos usar sal, pimenta, cúrcuma e salsinha a gosto e consertar com mais água ou menos fogo pratos que as vezes saem do nosso controle a confeitaria exige uma precisão suíça quando se trata de quantidades, métodos e processos. Duzentos gramas de açúcar não podem virar duzentos e dez assim como não se pode alterar o sentido enquanto se mistura a massa, a ordem dos ingredientes deve ser seguida à risca e é preciso estar muito atento para não empelotar ou solar a massa antes mesmo de ela ir para o forno.

O Bolo

Talvez seja por isso que muitos preferem se arriscar na gastronomia, contudo, é impossível resistir à uma bela torta de morango com creme de confeiteiro e por isso que a confeitaria ganha tanto valor. Os segredos não estão só na receita, mas nas mãos do confeiteiro e na cozinha onde se trabalha. É numa bancada de mármore gelado que se fazem as melhores ganaches, que ficam muito mais lisas e cremosas sem correr o risco de manchar a pedra branca. O forno precisa ser ajustado para que não se perca a umidade inteira antes de dar liga e crescer a massa assim como a geladeira não pode gelar a ponto de o chocolate ganhar uma cobertura de gelo por cima. A faca precisa ser levemente aquecida para não desmontar o bolo ao invés de cortá-lo e, o mais importante, é preciso ter pratos suficientes para todos comerem um generoso pedaço e, muito provavelmente, repetir uma ou duas vezes.

A organização também pode ser o grande ponto de inflexão entre uma torta de biscoito crocante e uma massa murcha e sem vida, o tempo é fundamental para que as misturas não sequem ou umedeçam demais e ter equipamentos em mãos é o que mais facilita quando estamos com os dedos empapados de farinha e claras de ovos e precisamos abrir duas gavetas até encontrar uma espátula. Os nichos de equipamentos, a calha de louças e até mesmo o espaço livre na bancada, para que o necessário seja apoiado ali na hora do preparo sem que falte espaço para se abrir a massa, podem ser o segredo de sucesso de um bom confeiteiro. No fim, mesmo parecendo um malabarismo de farinhas, ovos e adoçantes na tentativa de se transformar tudo numa sobremesa incrível esse espetáculo mais me parece um coral cantando uma sinfonia de Beethoven do que um palhaço de circo tentando equilibrar uma bola no nariz andando de monociclo na corda bamba. A precisão cirúrgica de fazer incisões no ponto certo do chocolate, suturar a massa com a delicadeza adequada e transplantar gemas e claras de uma vasilha a outra é quase que saborosa só de olhar.

O Bolo
O Bolo
O Bolo

Portanto, lembre-se que quando se deliciar com uma bela garfada de suspiro e frutas vermelhas de uma Pavlova redondinha e brilhante existiu um espetáculo por si só para que as claras não ficassem aeradas demais antes de se colocar o açúcar, foi necessário um relógio suíço para que o suspiro não queimasse no forno mas também não ficasse cru e, por fim, mão mais do que firmes para montar as três camadas sem quebrar a casca crocante que abraça a maciez doce do recheio. Certamente o espetáculo em sua boca será mais atraente para o momento, mas será interessante saber como que alguns poucos ingredientes proporcionaram tantos minutos de prazer gustativo.

Por fim, acredito que muitos já estejam a caminho da cozinha a procura de um docinho, portanto, aproveito para sair correndo porque já está na hora de tirar o meu bolo do forno!

O Bolo
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

As pantufas

As Pantufas

Ruy Ohtake, o célebre arquiteto paulista que assinou muitos dos prédios da capital como o instituto Tomie Ohtake e o Hotel Unique, tem um traço mais do que marcante que carimba sua influência na construção da cidade de São Paulo. Também foi autor da casa de sua mãe, a artista Tomie Ohtake, na qual empregou sua visão funcional e utilitarista da arquitetura, contaminada pelo pensamento modernista franco-alemão de Le Corbusier, Gropius e da Bauhaus; para ele, os quartos de dormir cumpriam a função de dormir e nada além disso e, portanto, abrigavam apenas o essencial para fazê-lo: uma cama, lençóis, cobertores e travesseiros e quem sabe um espaço para deixar as pantufas.

Tamanha era a funcionalidade do quarto que na casa de sua mãe, no Campo Belo, sequer tinham janelas nos quartos pois a janela serve para contemplar e entrar luz e isso não é dormir. Certamente a visão artística e crítica que mãe e filho tinham da arquitetura abriam espaço para repensar a forma e a função das coisas cotidianas, mas o mais atraente desse discurso é, talvez, poder repensar o que significa o nosso próprio quarto e talvez buscar a história que as nossas pantufas contam enquanto descansam no pé da cama.

As Pantufas

Apesar da configuração o quarto é primeiramente um refúgio, seja compartilhado com irmãos, com o espaço de trabalho ou sozinho estamos ilhados no mundo particular dentro das paredes que o dividem do resto da casa, como uma capela atrás do altar de uma igreja que resguarda uma sacralidade apenas para os que podem adentrá-la. Em segundo lugar o quarto é onde entramos totalmente despidos, e não falando apenas de roupas mas sim de tudo que trazemos da rua e por isso que talvez ele seja o ambiente no qual mais nos preocupamos com as cores das paredes e dos móveis; seja para relaxar, se concentrar, se isolar ou ampliar o ambiente a tinta que recobre as paredes terá um papel mais significativo no quarto do que em outros ambientes.

E então, qual história conta o seu quarto? Existem aqueles que têm camas desarrumadas durante todo o dia afinal não faz sentido esticar um lençol que será revirado na noite seguinte, outros guardam amplos espaços de estocagem e apoios como cômodas, armários, estantes e mesinhas para que tudo esteja a mão sem precisar sair dali. Existem também os quartos multifunção: aqueles que além de dormir servem para fazer ioga, trabalhar, ler e assistir séries deitado na cama. Tem o quarto para hóspedes que vai ser usado vez ou outra e nem sempre contará a mesma história e o quarto de vestir que conta duas histórias opostas: a animação de se arrumar com o maior primor e a excitação de se despir de todos os acessórios, cintos e sapatos depois de voltar para casa as duas e meia da manhã.

As Pantufas
As Pantufas
As Pantufas

Acredito que Ruy estava certo em uma parte, o quarto é sim um lugar de abrigar uma função específica, mas talvez essa função não seja o dormir apenas. O brincar também está dentro do quarto de uma criança que visita quatro universos diferentes dentro da sua imaginação sem sequer sair pela porta e cada mesa, prateleira e gaveta vira algo totalmente novo quando o quarto se transforma numa expedição à lua ou um castelo medieval. O trabalhar também pode fazer parte dessa função obrigatória do quarto de dormir e a mesa do computador vira o apoio do livro de cabeceira e do chá de camomila depois que o notebook já está desligado e a calça de linho foi substituída pelo pijama de flanela com desenhos de carneiros. Vestir-se é outra função acoplada que transforma a cama de dormir no suporte para todas as peças que serão provadas até encontrar a camisa perfeita para ornar com uma calça cáqui de barra dobrada enquanto o quarto mais se parece com um editorial de revista de moda até o momento em que tudo volta pro armário. Ou seja, eu acredito sim que existam funções únicas nesse ambiente que é tão aconchegante quanto um abraço, mas o que é único não é o que se faz dentro dele e sim a forma com que o usamos para nos recarregar e confortar quanto estamos ali.

As Pantufas

E talvez seja por isso que o quarto é usualmente o ambiente preferido de muitos, apesar de todas as histórias que o resto da casa pode nos contar existe uma que apenas nós contamos quando estamos deitados com um livro, uma série ou apenas os pensamentos que vão e vêm quando olhamos para o teto, afinal, não existe história melhor do que aquela que é contada quando estamos de pijama.

As Pantufas
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O projeto

O Projeto

Por volta das 7:30 o pão francês sai do forno na padaria da minha rua, logo depois da esquina que sobe para a igreja. Como existem poucas coisas melhores que um pão quentinho acompanhando um café preto pra acordar eu costumo ir busca-lo logo de manhã e passo no mercadinho, entre o balcão e o caixa eu posso optar entre ir pelo corredor dos pães, biscoitos e bolos ou, o pior, o dos doces e chocolates. Geralmente é nesse momento em que estou segurando o saco de papel aberto para não abafar os pães que, com a mão livre, acabo pegando algum docinho que está estrategicamente posicionado para mim, nesse impulso acabo lembrando que o azeite está no fim e no caminho para busca-lo passo pelos pacotes de macarrão, quando decido que vou fazer um espaguete pra janta desisto de equilibrar o pão nos braços e busco uma cestinha, não é mais apenas uma passadinha na padaria.

Diariamente consumimos uma infinidade de produtos e não teríamos dificuldade de listar ao menos 20 que temos ao nosso redor. Aquilo que trazemos do mercado, os livros que compramos em alguma temporada de desconto, as roupas que chegaram pelo correio, da mesma forma que é muito fácil se policiar para garantir a qualidade do produto que compramos: se peço uma pizza marguerita com massa fina e sem borda e recebo uma tamanho pequeno de calabresa com cebola eu facilmente posso reconhecer o erro, ligar para a pizzaria e solicitar a troca em um tom levemente enfurecido dependendo da minha fome, contudo existe algo que é menos intangível, menos qualificável e muito menos palpável e que pode causar uma série de confusões quando compramos, e com isso te pergunto: qual é o produto de um arquiteto?

O Projeto

Se vendemos ideias e soluções qual é o produto que entregamos? Certamente a materialização da sua construção ou reforma é um produto palpável e qualificável, é fácil saber se o revestimento escolhido foi realmente instalado e se a pintura foi bem executada, contudo, isso é o resultado do trabalho de diversos profissionais que se juntam para materializar uma obra, no meio disso, onde está o produto arquitetônico?

Não acho que seja fácil explicar, mas tampouco é impossível entender. Trabalhamos com pensamentos e, por conta disso, o que entregamos é uma representação do nosso produto. O médico não te fornece a cura e sim uma descrição detalhada de quais comprimidos tomar e de quantas em quantas horas em um papelzinho que torcemos para ser digitado para que possamos compreender a caligrafia. Nós tomamos a liberdade de fazer o mesmo, mas ao invés de palavras usamos a geometria e nos comunicamos através de desenhos. Nossas ideias, processos de pensamento e soluções estão todas expostas nas plantas, cortes, elevações, detalhes e memoriais descritivos que fazemos no decorrer do projeto com diversos níveis e escalas de detalhes.

Porém não são apenas desenhos, senão seriam obras de arte abertas à interpretação e não podemos deixar que uma obra seja conduzida mais pela emoção do que pela razão. Por isso adotamos também a prática dos chefs de cozinha que, apesar de te contarem a receita passo a passo, te entregam o prato pronto para ser aproveitado. Dizer que basta misturar farinha de trigo peneirada com ovos em movimentos circulares de fora para dentro é uma forma simplificada de resumir belos anos de estudo e prática, fazendo o processo de abrir uma massa fresca parecer algo corriqueiro, contudo, é nessa simplicidade que está todo o valor agregado do produto. Em meros desenhos conseguimos comunicar as soluções que tornam uma obra viável ou não, que modificam a forma de usar um ambiente e determinam como as pessoas vão circular pelos espaços. É nesses desenhos que estão colocados todos os pensamentos, conhecimentos, estudo e experiência que tivemos e é isso que faz deles uma materialização do nosso produto, para que ao final tudo aquilo que passou por nossa cabeça vire algo tangível para quem contratou.

O Projeto

E por fim, existe uma questão de quanto custa esse produto e para isso não existe uma única resposta. O arroz é vendido por peso mas o macarrão por pacote e o abacate por unidade, assim como tecidos são vendidos por metros lineares e casas por metros quadrados. Cada produto tem sua própria metrificação, por isso há quem cobre por metros quadrados de projeto e quem cobre por hora trabalhada, há quem cobre por quantidade de produtos ou por visitas e acompanhamentos de obra isolados. Para tudo isso também existe um valor mínimo porque ainda que o trabalho seja rápido existe toda uma infraestrutura de conhecimento, estudo e prática que permitiu ser tão simples ainda garantindo uma boa qualidade. Por isso, assim como passamos o pacote de lentilhas no escâner para saber o preço antes de levar para o caixa, sempre podemos pedir um orçamento e saber como aquele valor foi calculado, será muito mais fácil entender qual o produto a ser entregue quando tomamos conhecimento de como foi concebido.

O Projeto
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

Os temperos

Os Temperos

Existe uma grande diferença entre cozinhar com temperos frescos e aqueles que vêm em saquinhos, essa regra não se aplica apenas às ervas, mas também à grãos como pimentas e cafés em geral. Geralmente quando a pimenta é torrada e moída para ser vendida em pó ela não é pura, vem junto com galhos e folhas que mudam o gosto final, deixando o pozinho um tanto morto e pacato. O mesmo acontece com o café moído que, por ter impurezas, é necessário ser torrado por mais tempo, resultando numa bebida mais amarga. Já para as ervas a diferença não é nada sutil, oréganos, manjericões, louros e tomilhos têm todos o mesmo gosto de esquecido no fundo do armário quando compramos seco e moído. Apesar de ser um ferrenho defensor do frescor, não apenas nos temperos como também nos alimentos, não é por que eu mesmo seja um fresco, na realidade faço minhas as palavras de Paola Carosella quando defendo que devamos ter nossas próprias hortas, moedores e pilões para que nossa comida seja temperada, perfumada e abraçada com essa combinação de plantas que deixam a vida mais feliz.

A felicidade resulta de um combinado de vários fatores, um deles certamente será o manjericão fresco em cima do espaguete ao sugo que vai tingir de vermelho os queixos ao redor da mesa. Mas também a brisa fresca que entra pela varanda e abraça o sofá rouge enquanto aproveitamos a luz do dia para ler um livro numa tarde preguiçosa, o banho com cheiro fresco de lavanda massageando os pés no chão de seixos, as sessões de cinema com os pés para cima do pufe apoiando um balde de pipocas e suco fresco de laranja nas pernas, e até o limão que respinga na bancada preta da ilha da cozinha antes de virar três copos de caipirinhas frescas para animar o churrasco na varanda. Existe um prazer no frescor que perpassa todos os sentidos, desde o gosto do macarrão até o aconchego do sofá da varanda, a sensação de massagem nos pés por causa do piso do box, o som das risadas na sala e o cheiro cítrico do limão se misturando como o alho no churrasco.

Os Temperos
Os Temperos
Os Temperos

Isso tudo também não é por acaso, apesar de parecer loucura defender ambientes frescos no frio inverno paulistano com noites de poucos graus Celsius ele pode também ser um belo casal com o aconchego quente dos cobertores, lareiras e bebidas que aquecem a alma. Existe frescor nas plantas que se enraízam no vaso dentro do rack de mármore, nos painéis de concreto que acompanham os passos pelo corredor da sala aos quartos, na amplitude visual de olhar a sala e a cozinha contínuas e sem barreiras que são emolduradas pela varanda que olha toda a cidade e nas obras de arte coloridas que tomam as paredes. Não é apenas sobre o gelo que estala a bebida ou a brisa que arrepia os pelos do braço banhados pelo sol ameno, há frescor na sensação de paz e aconchego, nas cores e texturas, nos sons e nos cheiros ainda que a gente esteja deitado no sofá em L coberto com uma manta azul fofinha assistindo a algum reality show de domingo.

Os Temperos

Por isso, digo com a maior certeza: da próxima vez que seus convidados saírem do elevador e forem recebidos pelas máscaras que sorriem para eles no teto do hall, entrarem pela sala e enxergarem a sala, a cozinha, a varanda e a cidade em camadas contínuas e integradas, usarem o lavabo cheio de formas irregulares para lavar as mãos e sentarem na poltrona da varanda para assistir ao sol se por enquanto tomam uma taça de vinho não hesite em colocar temperos frescos no jantar que estará ainda nas panelas e assadeiras do fogão. Pique ervas na ilha da cozinha enquanto conversa sobre o último livro que leu com quem está sentado na sala de jantar, amasse as pimentas no pilão da varanda para observar também a cidade ficando violeta, suje a bancada preta de cúrcuma amarela, páprica vermelha e tomilho verde para recriar uma versão comestível do quadro da sala de estar. No final da noite é capaz de sobrar um certo trabalho para a lava louças, contudo, é isso que deixa a vida mais feliz.

Os Temperos
lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

A janela

A Janela

A visão é um sentido extremamente complexo, composto por diversas partes interligadas que processam a luz que entra pelos olhos e a leva para ser interpretada pelo cérebro. Esse trajeto longo é feito tão rápido que sequer é possível se dar conta de que, na verdade, estamos vendo uma interpretação matemática de milhões de ondas luminosas a nossa volta. Esse raciocínio lógico bastaria para o lado esquerdo do nosso cérebro, contudo, toda a porção direita se empenha com afinco em empregar definições criativas e interpretações significativas dos estímulos visuais. Com isso, o homo sapiens é capaz não apenas de enxergar, mas também de imaginar, criar, acreditar e contar histórias e ligar tudo isso com experiências passadas e de outros homo sapiens em uma imensa rede de conhecimento compartilhado.

Os olhos são a janela da alma, o que eles enxergam é tão importante quanto o que os outros enxergam no fundo deles. O brilho do olhar apaixonado e as faíscas de um olhar raivoso muitas vezes comunicam muito mais que qualquer outro tipo de linguagem. Nessa mesma lógica podemos dizer então que as janelas são os olhos da casa e tão importante quanto a vista lá de fora é a alma que é enxergada aqui dentro. Acho que uma janela que mira um por do sol manchado de laranjas e violetas acima de um mar de prédios polvilhado de luzes é, sem dúvidas, encantador. Contudo me pego muitas vezes imaginando qual é a alma que essa cidade enxerga por trás dos olhos desse apartamento que, a menos que você esteja em um drone, dificilmente serão vistos por outros homo sapiens.

A Janela

Certamente existirá muita alma nas persianas se abrindo bem cedo enquanto a cama vai sendo arrumada, esticando os lençóis junto com a preguiça que só vai embora completamente depois de um banho e um expresso. Uma parte dessa alma será posta na mesa posta junto aos pães e frutas e alguns pedaços de parmesão que sobraram de uma macarronada de dias atrás. Uma outra parte estará no meio das mantas ao lado do sofá que vão esquentar as pernas durante o filme de sessão da tarde no domingo preguiçoso. O que eu quero dizer é: toda a vida cotidiana que acontece por trás de uma janela é a alma de algo maior que nós, a junção desse monte de almas que são exibidas por cada uma das janelas como se fossem milhares de peças de teatro simultâneas é o que confere uma camada de aconchego nessa selva de pedras e torna a paisagem amigável e é por isso que, mesmo de longe, existe muito fascínio em olhar essa paisagem de prédios polvilhados de luz, porque ainda que não consigamos ver sabemos que cada pontinho iluminado ao longe é a alma de um lar.

E talvez seja por conta desse fascínio que temos pela paisagem da cidade que buscamos remontar seus detalhes dentro de casa. Enxergamos prédios nos pilares de concreto da sala que estão abraçados a lembranças de viagens e fotos de família; o polvilhado as luzes indiretas espalhadas pelo teto de concreto lembram o mar de janelas iluminadas no horizonte. Até mesmo tons amarelos, laranjas e violetas do céu viram flores no painel pintado na parede da cozinha, assim como os grafites em muros e prédios do centro da cidade. E as janelas, grandes panos de vidro, misturam o que está lá fora e aqui dentro em uma dança até o momento em que tudo é uma coisa só, um grande espaço único cheio de casa e cidade que entendemos e acolhemos como lar.

A Janela
A Janela
A Janela

Para o lado esquerdo do meu cérebro, estaríamos apenas falando de um apartamento no vigésimo segundo andar com sala e cozinha integradas e belíssimos pilares e teto de concreto, um painel artístico que remonta flores e plantas na parede da cozinha e ainda faz uma releitura dos grafites do elevador do próprio prédio e tudo isso coroado por grandes janelas basculantes de onde entra muita luz e por onde se vê toda a zona sul de São Paulo. Entretanto é a riqueza de interpretações do lado direito que adiciona uma nova camada de significado a esse ambiente cuidadosamente pensado para funcionar e agradar. Recentemente li um livro[1] que falava sobre como o homo sapiens busca trazer significado para que cada uma de suas experiências tenha um valor único e simbólico, por isso me importa muito saber o tamanho e a vista da janela e se bate sol suficiente para as plantas que vão ficar apoiadas no banco afrente, contudo, talvez o que mais me traga fascínio é descobrir o que existe por trás desses olhos que enxergam a cidade.

A Janela
A Janela
A Janela

Homo Deus: Uma breve história do amanhã de Yuval Noah Harari. Companhia das Letras, 2016.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

Noite de inverno

Noite de inverno

Imagine um grupo de pessoas em uma noite muito fria, o que pode variar de meros 10° Celsius à temperaturas negativas se esse texto for lido em São Paulo, Porto Alegre ou Gdańsk, no litoral norte da Polônia. Essas quatro pessoas vestidas de roupas felpudas e com mantas sobre as pernas bebem algo para esquentar a alma, estão dispostas em uma espécie de circulo ou meia lua enquanto conversam e logo ao centro está a fonte de luz que rasga o ambiente escuro com seus tons amarelos, laranjas e azuis desenhando elipses de sombra atrás de cada corpo. Agora me conte: essa descrição é de uma caverna paleolítica em algum ponto gelado da Eurásia, do foyer da Ópera de Paris num entre concertos da Belle Époque ou de uma sala de TV curitibana assistindo a nova animação da Disney no meio das férias de Julho?

É admirável que essa tecnologia descoberta há milhares de anos, em meio ao século XXI, ainda é capaz de reunir pessoas ao seu redor não apenas para se aquecer mas também para contemplar a elegante dança das chamas. Apesar das máquinas, informática e inteligência artificial o ser humano ainda é muito ritualístico trazendo impregnado em suas tecnologias mais avançadas uma cartela de valores que nos marcam desde que nos concebemos por espécie e sociedade e o fogo é um dos signos que mais estão entrelaçados na nossa cultura de convívio.

Noite de inverno

Para além do aquecimento, esse elemento ainda marca ciclos e laços, afinal, quantos de nós já não reuniu entes queridos ao redor de uma mesa cheia de alimentos com várias velas enquanto o grupo entoava em uníssono o famoso cântico: parabéns para você, nessa data querida, muitas felicidades e muitos anos de vida! Aos mais dramáticos posso ir além ainda e perguntar quantos já não pegaram cartas e fotos de um amor que se foi e as queimou para findar a dor de um término. Ou seja, o fogo não é exatamente um adorno senão a condição de existência em sociedade e o ligamento entre os laços de afeto.

Metade do país não vai se relacionar com os parágrafos seguintes, tomo a licença poética de relatar sentado em meu apartamento em São Paulo no meio de julho, quando a temperatura máxima chega a vinte e poucos graus com um ventinho gelado, portanto aos que se encontram acima de Minas Gerais apenas digo que adoraria estar disfrutando do inverno tropical junto à vocês, contudo, para os que estão daqui para baixo talvez o pôr do sol traga consigo a vontade de se enrolar numa manta, ligar o Netflix, pegar uma taça de vinho ou quem sabe um belo fondue e ascender uma lareira. Chega a ser raro falarmos em ascender uma lareira em um país tropical abençoado por Deus, mas segundo a plataforma Projeteee da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)[1] e do Ministério do Meio Ambiente (MMA) na cidade de São Paulo em maior parte do ano o desconforto térmico nas edificações é oriundo do frio e não do calor.

Noite de inverno

Ainda assim o fogo aparece nas casas paulistanas muito mais no preparo de alimentos, salvo no sul do país onde lareiras se tornam mais comuns, o frio inverno de São Paulo costuma ser enfrentado com aquecedores ou lareiras portáteis que alegram a noite dos pequenos apartamentos que não poderiam ter toda a infraestrutura para uma à lenha.

Noite de inverno

De qualquer forma o fogo sempre nos trará o encanto espiritual e ritualístico da dança das chamas, seja para aquecer uma sala de estar em São Paulo, para preparar um acarajé cheio de dendê em Salvador ou para o luau na praia em Maceió. Porém para aqueles que, assim como eu, estão abaixo do Trópico de Capricórnio, talvez o fogo nesse mês seja o elemento que vai invadir a sala de TV e virar a aura do ambiente, abraçar os corpos com sua ternura quente e preencher todo o ar. Apesar do medo de se queimar é inegável que o calor do fogo traz em si uma mágica que nos une, talvez então, o fogo seja em si a materialização do amor.

[1] Portal Projeteee.

lucas Almeida

lucas Almeida - 30 de nov. de 2023 - 2 min de leitura

O chaveiro

O Chaveiro

Certa vez minha mãe me perguntou como eu conseguia ter tantas coisas penduradas no meu chaveiro. Em minha bolsa havia um emaranhado de chaves da minha casa e da minha avó junto a argolas, enfeites e pingentes. Isso só foi mudar anos depois quando fui morar sozinho, a chave do meu apartamento tinha uma base redonda e prateada e estava pendurada em um chaveiro plástico amarelo com o número 37 escrito à mão. Este logo foi substituído por uma medalha de São Bento que passaria a ser seu único adorno até que recebesse como companheira a chavinha preta do cadeado da minha bicicleta.

Ter aquela chave em mãos me fez refletir sobre as portas que ela abriria, muito além da única entrada do meu pequeno apartamento alugado em São Paulo, ela destrancava uma série de expectativas e sonhos que me acompanharam por boa parte da vida. Construir um lar não é das tarefas mais fáceis, é como quando cortamos uma folha de jiboia e temos que deixar alguns dias em um copo com água para criar raízes antes de colocar em um vaso com terra, leva tempo até se fincar no novo terreno e reconquistar a estabilidade anterior à mudança.

O Chaveiro

Nesse período qualquer tempo livre virou um momento de negociar um caminhão de mudança e agendar a ligação da energia enquanto longos debates em cima de plantas baixas com três posições diferentes para a cama apareciam em meio ao jantar. Certamente para mim esse processo foi bastante ortodoxo, no meio da faculdade de arquitetura e filho de uma arquiteta era inegável que o simples arranjar dos poucos móveis que cabiam em trinta metros quadrados viraria um dos grandes projetos no qual eu já trabalhei. E assim foi sendo construído esse lar, com algumas coisas novas e outras herdadas, dezenas de experimentos no papel e uma montagem a oito mãos que resultou no meu novo lugar preferido.

O Chaveiro

Ainda assim não me mudei com muito, na realidade o que menos tinha em casa eram móveis, a concretização desse projeto estava em todo o afeto que foi colocado sobre cada desenho, nos laços que foram trançados durante cada visita e na história que cada detalhe teria para ser contada muitas e muitas vezes, assim como essa. Gosto de dizer que a arquitetura constrói lugares e não espaços; espaço é muito impessoal, não temos relação afetiva com o espaço sideral, por exemplo, pois nunca estivemos lá. Agora lugar é inundado de sentimentos e vivências. Era isso que dizia Christian Norberg-Schulz, um arquiteto norueguês do século passado, e é assim que enxergo meu pequeno apartamento onde cabe uma vida inteira.

Portanto, essas foram as portas que aquela chave abriu. Tê-la em mãos foi o incentivo para começar a procurar suas fechaduras e acredito que seja esse o primeiro passo para se construir um lar. Junto à cada planta baixa que foi feita para esse apartamento existiu uma narrativa que contava histórias de vida e abria espaço para novas histórias serem criadas, que organizava lembranças e que adubava a terra firme onde a mudinha de jiboia seria plantada. Hoje eu levo toda essa experiência pendurada em meu chaveiro, que está maior do que nunca.

O Chaveiro
Nome

A Varanda

Nome

O Aconchego

Nome

Os tecidos

Nome

A Bagunça

Nome

O Lavabo

Nome

O backstage

Nome

Os Serviços

Nome

A cozinha

Nome

A abertura

Nome

O jantar

Nome

O invisível

Nome

O Sofá

Nome

Orgulho

Nome

O Umbral

Nome

A surpresa

Nome

A imensidão

Nome

A família

Nome

A selva

Nome

O imã de geladeira

Nome

O trono

Nome

O espaço

Nome

O refúgio

Nome

A vista

Nome

O escritório

Nome

A arte

Nome

O café

Nome

O bolo

Nome

As pantufas

Nome

O projeto

Nome

Os temperos

Nome

A janela

Nome

Noite de inverno

Nome

O chaveiro